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11.8.07

Anarquismo, Religião e Misticismo

por Reverendo Fernando Ganso

O anarquismo histórico, em seu período mais turbulento e ativo, no final do século XIX e inicio do século XX, levou uma critica importante contra as instituições religiosas ocidentais, as relações entre as pessoas e Deus – Deus, segundo a teoria cristã, bom ressaltar -, e ao próprio conceito de Deus. Cabe a nós, em pleno século XXI, escutar essa critica de maneira a observar de que modo ela esta ligada a seu próprio tempo, suas intenções, sua validade na sua época especifica de que maneira ela ainda é valida no nosso tempo.
Bakunin, por exemplo, como um dos principais práticos do anarquismo, após o termo ser formulado por Proudhon, via as religiões de maneira nefasta, como intimamente ligadas ao Estado; os dois males da sociedade seriam, primeiramente, Deus e o Estado. “Sua visão ateísta é muitas vezes colocada como uma posição anti-Deus, negando qualquer poder a um ente superior. A crítica de Bakunin vai denunciar inicialmente a estreita e intensa relação entre o poder do Estado e de sua oligarquia dirigente com o poder da Igreja e o do clero, ambos grupos defendendo seus próprios interesses contra aqueles da maioria da população” (Mata). Segundo ele:
“Sendo Deus pressuposto, tudo isso é rigorosamente conseqüente: Deus é o infinito, o absoluto, o eterno, o todo-poderoso; o homem é o finito, o impotente. Em comparação com Deus, sob todos os aspectos, ele é nada. Somente o divino é justo, verdadeiro, belo e bom, tudo o que é humano, no homem, deve ser por isso mesmo declarado falso, iníquo, detestável e miserável. O contato da divindade com esta pobre humanidade deve, portanto, necessariamente devorar, consumir, aniquilar tudo o que resta de humano nos homens” (p. 24). (Bakunin apud Mata).
De fato, desde aquele período, o cristianismo (apostólico romano e bizantino) decresceu em termos de poder, contudo, ainda vive com uma força absurda em nossa sociedade ocidental (cristianismo aqui entendido, como colocado, como a parte “institucionalizada” do mesmo). Ainda é constante vermos a antiga atitude de lidar com Deus de uma maneira passiva, de modo a projetar toda as causas de benefícios e malefícios acontecidos em suas mãos, renegando inclusive nossa própria responsabilidade nas mãos dos desígnios divinos, um exemplo clássico seriam as frases: “Por que Deus esta me punindo?” ou “Por que Deus quis assim?”. Sartre, por exemplo, chamava essa atitude de não assumir as responsabilidades por nossas ações de má fé. Se considerarmos que os desígnios divinos eram as interpretações do poder eclesiástico sobre a Bíblia, poderemos compreender melhor a insubmissão anarquista, já que, de maneira nítida, o poder clerical estava intimamente ligado ao poder político e hierárquico da sociedade da época.
O anarquismo dentro do contexto social do iluminismo atentou para o poder maciço da religião como forma de controle, de domesticação e manutenção do Estado, especialmente sua forma de poder absoluto, durante a Idade Média. Essa visão, em grande parte, permanece assim até hoje. Podemos ler, por exemplo, “a French Encyclopdie Anarchiste (1932)” que cita um artigo de Gustave Brocher sobre ateísmo: ‘Um anarquista, que repudia tanto um senhor todo-poderoso na terra, como a autoridade de um governo, deve necessariamente rejeitar a idéia de um poder onipotente ao qual tudo deve estar sujeito; para ser consistente, ele deve declarar-se ateu’” (Walter).
Se a critica anarquista atentou, em sua observação, para o modo em que a religião usurpava o poder popular e reprimia as revoltas, autonomias e insatisfações, temos que observar que em muitos casos existiram religiosos que tiveram outra relação, tanto com Deus, quanto com a sociedade, de maneira a não propagar a onda hierárquica e totalitária. Um exemplo inicial pode se dar “No judaísmo” onde “profetas do Velho Testamento desafiam reis e proclamam aquilo que hoje é conhecido como ‘Evangelho Social’. Um dos mais eloqüentes textos bíblicos é o cântico de Ana ao conceber Samuel, que ecoa no cântico de Maria ao conceber Jesus: ‘Minha alma louva ao Senhor; e meu espírito se regozija em Deus meu Salvador... Ele abateu o poderoso com seu braço; Ele dispersou o orgulhoso na dureza de seus corações. Ele derrubou o poderoso de seu trono; Ele exaltou o fraco e o humilde. Ele saciou o faminto com coisas boas; e deixou os ricos sem nada’” (ibid).
Durante o século XVII um grupo chamado de “cavadores” (diggers) já mostrava grande parte da base do ideal anarquista que despontaria a seguir. Este movimento teve suas bases nas idéias de Winstanley e William Everard e criaram sua teoria “em 1648 e passaram à ação em 1649” (Woodcock: 48) onde privilegiavam a razão, o reinado de Deus dentro do homem (antecipando Tolstoi e com uma visão similar a maioria dos misticismos), o fim da propriedade privada, etc. Winstanley afirmava a necessidade de tomar propriedade e participou, inclusive, da criação de uma sociedade como ele idealizava ganhando uma pequena adesão popular, mas sendo atacado ferozmente, até seu comunismo rural ser “vencido”. Winstaley dizia:
“Todo aquele que tem autoridade nas mãos procede como um tirano; quantos maridos, pais, patrões, juízes portam-se como senhores, oprimindo os que estão sob seu poder, sem saber que essas esposas, filhos, servos e súditos são seus semelhantes e têm os mesmos direitos a repartir as bênçãos da liberdade” (Winstanley apud Woodcock: 49). E prossegue com seu discurso nitidamente libertário: “Que todos os homens digam o que quiserem: enquanto tais senhores afirmarem que a terra lhes pertence, protegendo essa propriedade privativa, que é minha e tua, o povo jamais conseguirá obter a liberdade e a Terra não ficará livre de problemas, opressões e queixas. É por essa razão que o Criador de todas as coisas está constantemente enfurecido” (ibid: 50).
Muito próximo ainda as idéias de Winstanley podemos observar, durante a revolução francesa, os Enragés. Estes, segundo Woodcock, não formavam exatamente um pensamento homogêneo, ou um partido, mas antes um grupo de desagregados que cooperavam entre si, “defendendo a idéia de que o povo deve exercer ação direta e vendo nas medidas econômicas comunistas, mas do que na ação política, o caminho para acabar com o sofrimento dos pobres” (ibid: 60). O principal representante dos Enragés foi o padre Jacques Roux que “certa vez, definiu sua tarefa como sendo: ‘a de tornar os homens tão iguais entre si quanto são iguais por toda a eternidade diante de Deus’” (ibid:61) apontando também para o fato de que qualquer forma de governo deveria ser proibida, desafiando os jacobinos. Roux foi preso e condenado à morte, se matando, contudo, antes.
Um dos grandes revolucionários cristãos que, se por um lado não se dizia anarquista, por outro era um dos que mais pode ser associado com o termo, se chama Léon Tolstoi. Ele viveu depois que o ideal anarquista já havia sido propagado com este nome por Proudhon, e foi influenciado pelo francês. Tolstoi conseguiu reunir um dos elementos essenciais que o anarquismo trouxe em contraposição ao “socialismo autoritário” que foi a importância do individualismo, ou melhor, a importância do indivíduo. Outro elemento primordial da crítica de Tolstoi aproveitado por uma série de movimentos vindouros foi a não violência o que foi utilizado por, nada mais nada menos, que o grande revolucionário indiano Mahatma Gandhi (Mahatma, do sânscrito "grande alma"). Podemos ver toda influência anarquista nas palavras de Tolstoi: “Todos os governos são bons e maus na mesma medida. O melhor ideal é a anarquia” (Tolstoi apud Woodcock: 257) e “Considero todos os governos (...) não só o governo russo, como instituições complexas, sacramentadas pela tradição e pelo costume, que existem apenas com o objetivo de cometer, pelo uso da força e da impunidade, os mais revoltantes crimes. E acredito que os esforços daqueles que desejam aperfeiçoar a nossa vida social deveriam ser dirigidos no sentido de libertarem a si mesmos dos governos nacionais, cujos erros e – acima de tudo – cuja inutilidade tornam-se cada vez mais aparentes em nossa época” (ibid: 260). É interessante ainda observar que Tolstoi manteve algum contato, mesmo que de longe, com anarquistas clássicos da época como Kropotkin e Proudhon – aos quais admirava -.
O próprio Kropotkin, anarquista comunista que reverenciou a ciência clássica, fez suas observações sobre alguns desses religiosos, quando diz:
“Este movimento começou por ser anarquista comunista, pregado e posto em prática em algumas comarcas. E, abstraindo as suas formulas religiosas, que constituíram um tributo pago à época, encontramos nele a mesma essência das idéias que nós, anarquistas, representamos atualmente: negação de todas as leis do Estado ou divinas, a consciência de cada indivíduo é que deve ser a única aceitável; a comuna, dona e senhora absoluta de seus destinos, recuperando, dos senhores, todas as terras, e negando ao Estado o tributo pessoal ou em dinheiro; enfim, o comunismo e a igualdade postos em prática” (Kropotkin apud Lúcio).
Esses movimentos que Kropotkin fala são movimentos que utilizaram a base gnóstica e a fizeram ressurgir. Eis Kropotkin dando nome aos bois:
“Na Boêmia teve o nome de movimento hussita; e de anabatista, na Alemanha, na Suíça e nos Países Baixos. Pode-se afirmar que estes movimentos, além de constituírem uma revolta contra o senhor, tinham uma outra característica: a revolta completa contra o Estado e contra a Igreja, contra o direito romano e contra o direito canônico, em nome do cristianismo primitivo” (ibid).
Estes movimentos tiveram, portanto, origem de movimentos gnósticos antiautoritários que podem ser inclusive, segundo uma interpretação, um proto-anarquismo. A critica dos anarquistas, no século XIX e XX, aos religiosos estava calcada, sobretudo, sob a égide do movimento positivista e de tal forma esteve incluída em seu tempo que não observou as alternativas que a própria religião demonstrou durante toda sua existência. Desde as palavras de Jesus, contidas em Salmo 82,6: “pois bem, eu vos disse: Sois deuses; sois todos filhos do Altíssimo" como as palavras de São Paulo onde diz que: “a graça eleva o homem acima das leis deste mundo”, poderiam e levaram a interpretações contra as autoridades ctônicas tais como os governantes, o estado e as leis constituídas. Acrescente-se também toda questão envolvida no cristianismo do Espírito Santo, i,e, o paráclito. O paráclito é totalmente indesejável para a Igreja, pois leva na verdade o contato com Deus (Self) ao próprio indivíduo e não mais é necessária mediação da Igreja ou dos padres, todo ser passa a ser, a partir dai, sagrado. Segundo a interpretação de Jung em Resposta a Jó : "A ação continua e direta do Espírito Santo sobre os homens convocados à condição de filhos de Deus é, de fato, uma encarnação que se realiza permanentemente. Enquanto filho gerado por Deus, Cristo é o primogênito ao qual se seguirá um grande número de irmãos nascidos depois dele” (Jung, 2001) Os anarquistas em seu contexto não observaram as possibilidades também revolucionarias (apesar de trabalhar mais com a subjetividade, ou com aspectos ontológicos) dos movimentos religiosos, místicos ou congêneres.
O gnosticismo valeriano, por exemplo, tinha um sistema de crenças que tentava romper com o que eles chamaram de estado de sistase. A sistase seria um limitador da nossa potencialidade divina (do espírito, das partículas divinas, ou atmás) que foi presa pelo Demiurgo, um anjo ou deus criado em todo processo ocorrido na queda de Sofia (outra divindade gnóstica do seu mito cosmogonico) e que sem o saber inibia o ser humano ao contato com o pleroma, a realidade verdadeira para os gnósticos (encontrada na câmera nupcial, que pode ser descrita pelo evangelho de Felipe); inibia, sobretudo, o ser humano de entrar em contato com suas forças originarias, deixando-o preso então no kerona (do gr. kenósis- esvaziamento). Essa singularidade oculta era protegida por sete arcontes, demônios de Demiurgo que eram materializados nas figuras dos governantes. Esse jogo de deuses e demônios era em maior parte, para o gnosticismo, símbolos ou alegorias.
Cabe a nos, hoje, tentar permitir essa liberdade de crença de modo a não criar um dogma ateu que arbitrariamente limite a crença dos indivíduos. Sem deixar de observar, contudo, as criticas anarquistas as instituições verticais, tais como a Igreja, que todo o momento tenta servir de mediador entre a população e a divindade, forjando uma única interpretação de todas as escrituras consideradas como sagradas, alienando a população, dessa forma, de sua autonomia. Como diz Kropotkin sobre Denck (anabatista):
“...quando perguntaram a Denck, um dos filósofos do movimento anabatista, se reconhecia a autoridade da Bíblia, ele respondeu que somente a regra de conduta que um indivíduo encontra, para si, nessa mesma Bíblia, é que constitui a obrigação da sua consciência.” (Kropotkin apud Lúcio).
A existência de religiões que, não só não renegam, como apóiam um modo de ser autônomo e uma sociedade que busque tal autonomia antiestatal, mostram a pluralidade de intenções dentro do mundo religioso, desde as mais dominadoras ate as mais libertarias. Dever-se-ia, portanto, creditar esta liberdade de crença e em especial, compreender que não existe ligação intrínseca entre autoritarismo, centralismo e religião ou mística.
Um possível exemplo, por mais complicado que seja, de misticismo-religioso ligado aos ideais pré-anarquicos são os Iluminati. “Fundada em 1776, na Bavária, por Adam Weishaupt, a Ordem dos Iluminati tornou-se o protótipo da sociedade secreta disposta a dominar o mundo e inspirou uma trilogia alucinante e alucinada de Robert Anton Wilson que, por sua vez, serviu de inspiração a um RPG criado por Nigel D. Findley. (...) A imagem popular dos Iluminati como personagens sinistros, ocultos nas sombras e manipulando os acontecimentos com uma influência sutil e pervasiva, porém, está muito longe da realidade e surgiu, de fato, da pena fantasiosa de autores de direita, que viam nas propostas libertárias de Weishaupt uma ameaça ao status quo e fizeram o possível para desacreditá-lo junto ao público (...). Muito pelo contrário, a criação dos Iluminati da Bavária marca uma das raras ocasiões em que as duas grandes tendências históricas nascidas do movimento gnóstico - o esoterismo e o anarquismo - tornaram a se encontrar “(Lúcio). As idéias de Weishaupt tiveram uma forte influencia do iluminismo, dos jesuítas, da maçonaria, dos místicos cristãos. De fato, assim como no anarquismo histórico, a meta dos Iluminatti de Weishaupt “(...) era uma sociedade sem classes, sem estados e sem fronteiras. Para atingir esse objetivo era preciso, antes de mais nada, libertar o ser humano dos condicionamentos impostos pelos donos do poder. E é ai que entrava a Iluminação, entendida ao mesmo tempo como uma emancipação filosófica e uma transformação espiritual: ‘A iluminação universal torna as nações e os governos supérfluos’” (ibid).

Na contemporaneidade, onde a lógica positiva e discurso cartesiano deixam de ser os principais avatares de uma época, abrem-se as margens e cresce a demanda por um novo paradigma, uma nova compreensão da vida e dos discursos. É nesta época que temos o surgimento, por exemplo, da magia do caos e do anarquismo ontológico de Hakim Bey. Ambos influenciados pelo misticismo, como o caso do sufismo em Bey, e pela pluralidade religiosa, como a liberdade de uso de qualquer crença ou sistema de magia na magia do caos. Contudo, por mais que possamos associar essas teorias e práticas ao anarquismo podemos observar que, em certos pontos, elas estão um pouco distantes do modelo de anarquismo social, compromissado com a luta de classes. Se ficarmos atentos, poderemos perceber, que se trata antes de desfazer todo o condicionamento do ser humano que, limita a sua imaginação, sua criatividade, sua potencialidade, i.e, o caos criativo. A magia historicamente pode ser dividida em duas grandes vertentes, a baixa magia que é aquela que busca realizações materiais, por exemplo: “mulheres, homens, carros, dinheiro, etc” e a alta magia que busca uma realização interior, o encontro com nosso deus interior a exemplo dos diversos misticismos. Poderíamos citar o Sagrado Anjo Guardião entre os thelemitas, o Zos-Kia entre os caoistas, o Cristo interior entre os gnósticos, etc... É claro que existem diferenças brutais entre as crenças ou experiências, contudo, este parece ser um caminho possível para o des-condicionamento do consenso, das leis que mantém nossa criatividade e, logo, nossa subversão dentro do “controle social”.

A transmutação do ser e da cosmovisão dominante parecem imperativos essenciais para o anarquismo dar conta da realidade a qual visa estar construindo, não necessitando que suas revoluções sejam temporárias e o sucesso se estabeleça apenas em exercer “sua” vontade de potencia, e que também não fique apenas no lado paternalista representado por Zeus, ou maternalista representado por Demeter, que foi na mitologia grega uma “protetora das criaturas jovens e indefesas”. Justamente esta transmutação do ser dá ao individuo a possibilidade de estabelecer para si uma ética que possa estar, até mesmo, em contraponto a sociedade, quando assim for necessário, chegando a sua própria Vontade, ou a seu próprio ser, que jaz no seu mais intimo e profundo inconsciente. Não se trata, talvez, da necessidade implícita de uma religião, mas antes parece importante uma mudança na pessoa para que o ideal anárquico não se desvirtue em autoritarismo, sociedade de classes ou poder dos mais “fortes” sobre os mais “fracos”.
Perguntemos, portanto, se esses dois modos de visão são excludentes ou se, ao contrário, eles se complementam. Será possível um anarquismo compromissado com a realidade objetiva e subjetiva?


Bibliografia:

Bey, H. Zonas Autônomas Temporárias.
Bicalho, Pedro. O Cárcere da Razão: o aprisionamento de sambistas no universo cartesiano. 1998
Jung, C. G., Resposta a Jô. Petrópolis: Vozes. 2001 B. (1952).
Lúcio. Magia e Anarquismo.
Mata, J. Anarquismo e Religião: a negação do Deus criador enquanto princípio de insubmissão.
Walter, Nicolas. Anarquismo e Religião; Baseado em uma palestra proferida em South Place Ethical Society em 14 de julho de 1991. Traduzido e adaptado por Railton. Coletivo Periferia.
Woodcock, G. História dos Movimentos Anarquistas, v1: A Idéia.

18.5.07

Daniel Pinchbeck: 2012 como uma transição para uma nova forma de consciência

O trecho a seguir foi traduzido de entrevista concedida pelo escritor Daniel Pinchbeck ao site Neofiles em 2005. Pinchbeck é autor dos livros "2012: The Return of Quetzalcoatl" (2006) e "Breaking Open the Head: A Psychedelic Journey into the Heart of Contemporary Shamanism" (2003), além de colaborador de revistas como Wired e Harper's Bazaar.

"Não devíamos nos fixar no ano 2012. Eu diria que já estamos num período de transição, uma transição para uma nova forma de consciência humana, e esse processo deve se completar em algum ponto próximo dessa data. É importante notar que o processo está tomando forma agora, e está aumentando sua intensidade. Mas o que é esse processo? Eu tenho encarado o assunto por uma série de perspectivas filosóficas e esotéricas. Por exemplo, [...] [o psicanalista Carl] Jung propunha que mente e matéria na verdade não são separáveis, e a relação entre as duas se manifesta através de sincronicidades, conexões telepáticas e de várias outras maneiras. Ele percebia que a humanidade está suprimindo a "realidade da psique", e que essa supressão não pode durar para sempre. Antes de morrer ele viu diversos sinais que interpretou como possíveis passos rumo a uma mudança na natureza da psique.

O filósofo do século 20 Jean Gebser escreveu uma obra-prima sobre a evolução da consciência humana, "The Ever-Present Origin" (1986), na qual ele divide tal evolução em várias estruturas e estágios. De acordo com sua tese, a humanidade está à beira da passagem do que ele chama de estrutura "mental-racional" para uma que ele denomina "integral-aperspectiva". A essência dessa transformação seria uma mudança no modo como compreendemos e vivenciamos o tempo. Nós também passaríamos a considerar estruturas antigas de consciência, como o misticismo e a magia, ao invés de rejeitá-las, como fazemos agora.

Gebser nota que ainda nos imaginamos contidos num tempo definido por metáforas espaciais - "o tempo está acabando", "não temos mais tempo", "estou gastando meu tempo" etc. Tratamos o tempo como uma quantidade - pode-se ter o suficiente ou não. Mas, como Gebser aponta, o tempo não é nada disso - o tempo é um elemento estruturador subjacente da realidade, e nada tem a ver com espaço. Essa má-interpretação da natureza do tempo seria a causa de nossa atual crise - algo que ele descreve como o mesmo que tentar pilotar um jumbo dentro de uma salinha.

Gebser não sabia sobre o calendário Maia, mas o que para mim é tão interessante sobre o calendário é que ele apresenta uma orientação diferente em relação ao tempo, uma que eu diria ser muito mais útil. Os dias são considerados "tons" que possuem uma relação harmônica entre si, girando em ciclos de 260 dias. A sincronicidade é parte integrante do calendário Maia, em oposição ao linear e arbitário calendário Gregoriano que nós usamos e que nos impõe um certo modelo de tempo linear. A visão de Arguelles [José Arguelles, líder espiritual new age e autor do livro "The Mayan Factor: Path Beyond Technology", sobre o calendário Maia] é que os calendários eram originalmente usados para nos sintonizar com os ciclos naturais, mas os calendários solares usados pela civilização ocidental têm sido artificialmente desincronizados, e não correspondem aos ciclos lunares. Isso acaba por nos afastar cada vez mais da ordem natural das coisas, rumo a padrões de comportamento cada vez mais artificiais, desincronizados e talvez até dementes.

Especificamente, a data de 21 de dezembro de 2012 no calendário Maia conclui um ciclo de 5.125 anos, o que, para eles, é um movimento completo na história humana - englobando desde as origens da civilização (com a construção do Stonehenge e das pirâmides) até o período diante de nós, que eles pareciam considerar como um ponto de transformação inevitável para a evolução humana.

Em termos astronômicos, naquela data o sol do solstício de inverno estará alinhado com [...] uma fenda escura no centro da Via Láctea. Hoje sabemos que existe um enorme buraco negro neste ponto - astrônomos de hoje descobriram-no vários anos atrás, mas o calendário Maia já chamava a fenda de "buraco negro" em sua época, de acordo com John Major Jenkins [autor de diversos livros sobre o assunto, entre eles "Maya Cosmogenesis 2012" (1998)]. Teríamos que aceitar a noção de que o movimento de enormes corpos celestes poderia estar exercendo algum tipo direto de efeito energético sobre a consciência humana na Terra - claro, esse tipo de idéia é a base da Astrologia, tal como da teoria egípcia para a Precessão dos Equinócios. Num nível intuitivo, uma coisa que eu enxergo sobre a transição é que a realidade parece estar reagindo sutilmente cada vez mais, ao mesmo tempo em que se torna menos densa em sua forma material. Isso parece acontecer em fases. Mais e mais pessoas que eu conheço - e isso é totalmente verdade - estão experimentando mais sincronicidades, mais pensar em algo e esse algo acontecer; pensar em alguém e esse alguém aparecer. É como se a atmosfera psíquica estivesse se aquecendo - ou, nos termos de Gebser, como se a consciência estivesse se intensificando. É claro que o único modo de afirmar que isso está acontecendo é cuidadosamente tomando nota de suas próprias experiências, observações e estados de consciência."

Fonte: A.A.O.