por Pedro Ivo Resende
Seu Moreira comprou uma Mercedes 78. Adaptou a buzina com o tema do Star Wars para ver se fazia sucesso entre as colegiais. Ele tinha uma fixação magnética no que chamava de "garotinhas com cheiro de chiclete Trident". Por isso parava o carro de vez em quando na saída do colégio Pedro II.
- Ei, doçura, vem cá. Te dou um picolé de carne.
As garotas gritavam e se escondiam atrás das amendoeiras, com medo. Ele não ligava. Despia a camisa, a calça e ficava de cueca e meia preta, tomando sol em cima do capô do carro. E era nisso que se resumia o seu expediente de velho tarado. Até a vez em que uma mulher finalmente entrou no carro do Seu Moreira. Era a Tia Lucinda, que se orgulhava de ainda menstruar aos 68 anos de idade ("Aqui minha calcinha, ó. Cheia de sangue"). Ela perguntou:
- Seu Moreira, você tem algo contra próteses?
- Próteses?
- É, membros mecânicos.
- Tenho sim.
- Problema seu. Vamos pra Goiás. Quero começar vida nova ao seu lado.
Nisso, uma colegial chega e pergunta:
- E aí, Seu Moreira, o picolé ainda está de pé?
Tia Lucinda se adiantou:
- Psiu, o picolé já tem dona. Sai daqui, sua franguinha!
A menina fugiu com medo e se escondeu atrás de uma amendoeira. Seu Moreira abaixou a cabeça e chorou durante duas horas. Depois ligou a Mercedes e foi pra Goiás. Combinou de rachar a gasolina com a Tia Lucinda.
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15.5.10
20.4.10
O cabeleireiro das estrelas
por Pedro Ivo Resende
Meu cabelo é duro, estilo black-power. E se eu passasse algum tempo sem cortá-lo, sempre recebia o mesmo telefonema.
- O senhor Pedro, por gentileza.
- É ele.
- Bem, aqui quem fala é o representante dos direitos autorais da banda Jackson Five para a América Latina. Se você não mudar o seu penteado nas próximas vinte e quatro horas, entraremos com um processo por uso indevido de imagem contra o senhor. Passar bem.
Definitivamente era hora de cortar o cabelo e, por que não, adotar um visual moderno. Entrei no Chez Lutcho's, o salão da moda, e fui atendido pelo próprio cabeleireiro.
- Cabeleireiro, não! Sou hair designer.
- Ótimo.
Pedi pro Lutcho raspar o meu cabelo à máquina. Ele abriu a gaveta e me mostrou o aparelho.
- É isso que você quer?
- Sim.
Lutcho atirou a máquina contra o espelho e se enrubesceu de raiva.
- Sou Lutcho's Coiffeur, cabeleireiro das estrelas! Não me vendo por tão pouco. Eu te pego, eu te mastigo, te cuspo, eu te transformo. Deixa eu te mostrar uma coisa.
Lutcho remexeu num armário e me trouxe uma foto. Era ele e um sujeito loiro.
- Essa é uma foto minha com o Richard Gere. Cortava o cabelo dele em troca de aparições furtivas nos grandes sucessos de Hollywood.
- Porra, mas esse sujeito aqui não tem nada a ver com ele.
- A foto é antiga. Posso te contar um segredo?
- Sim.
- Eu inventei o corte asa-delta.
- É aquele da voltinha atrás?
- Isso.
- Que merda, Lutcho.
Lutcho ficou ainda mais transtornado e explodiu em prantos. Saiu correndo na direção de uma porta e se trancafiou lá dentro. Um velho barbudo de cadeira de rodas elétrica desceu uma rampinha do salão e parou ao meu lado.
- Lutcho tenta te agradar, te fazer feliz, e o que você dá em troca? Desprezo!
- Olha, não foi por querer.
- Peça desculpas para ele.
Andei até a porta, de onde se podia ouvir os soluços do cabeleireiro.
- Lutcho, desculpas aí.
- Diga!
- Dizer o quê?
- Diga que você é um animal, insensível, ignorante.
- Nem fudendo.
- Tá bom, me faça elogios então. Elogios em francês, elogios mil.
- Olha, eu só vim pedir desculpas. Mas também você fica contando essas mentiras. E isso é...
- Excuse me.
Olhei pro lado e vi um cara alto de cabelo grisalho. Puta merda, era o Richard Gere!
- Lutcho, darling, come on. Let's go to San Francisco.
Lutcho abre a porta e salta para os braços do galã de Hollywood, que o acomoda no banco traseiro de um Jaguar estacionado em frente ao salão. E eu fico com aquela cara de "mas que porra é essa?". Nisso o sujeito da cadeira de rodas sobe à toda velocidade para o topo da rampa e de lá proclama:
- Corações aflitos, meu jovem! O mundo está cheio deles.
Meu cabelo é duro, estilo black-power. E se eu passasse algum tempo sem cortá-lo, sempre recebia o mesmo telefonema.
- O senhor Pedro, por gentileza.
- É ele.
- Bem, aqui quem fala é o representante dos direitos autorais da banda Jackson Five para a América Latina. Se você não mudar o seu penteado nas próximas vinte e quatro horas, entraremos com um processo por uso indevido de imagem contra o senhor. Passar bem.
Definitivamente era hora de cortar o cabelo e, por que não, adotar um visual moderno. Entrei no Chez Lutcho's, o salão da moda, e fui atendido pelo próprio cabeleireiro.
- Cabeleireiro, não! Sou hair designer.
- Ótimo.
Pedi pro Lutcho raspar o meu cabelo à máquina. Ele abriu a gaveta e me mostrou o aparelho.
- É isso que você quer?
- Sim.
Lutcho atirou a máquina contra o espelho e se enrubesceu de raiva.
- Sou Lutcho's Coiffeur, cabeleireiro das estrelas! Não me vendo por tão pouco. Eu te pego, eu te mastigo, te cuspo, eu te transformo. Deixa eu te mostrar uma coisa.
Lutcho remexeu num armário e me trouxe uma foto. Era ele e um sujeito loiro.
- Essa é uma foto minha com o Richard Gere. Cortava o cabelo dele em troca de aparições furtivas nos grandes sucessos de Hollywood.
- Porra, mas esse sujeito aqui não tem nada a ver com ele.
- A foto é antiga. Posso te contar um segredo?
- Sim.
- Eu inventei o corte asa-delta.
- É aquele da voltinha atrás?
- Isso.
- Que merda, Lutcho.
Lutcho ficou ainda mais transtornado e explodiu em prantos. Saiu correndo na direção de uma porta e se trancafiou lá dentro. Um velho barbudo de cadeira de rodas elétrica desceu uma rampinha do salão e parou ao meu lado.
- Lutcho tenta te agradar, te fazer feliz, e o que você dá em troca? Desprezo!
- Olha, não foi por querer.
- Peça desculpas para ele.
Andei até a porta, de onde se podia ouvir os soluços do cabeleireiro.
- Lutcho, desculpas aí.
- Diga!
- Dizer o quê?
- Diga que você é um animal, insensível, ignorante.
- Nem fudendo.
- Tá bom, me faça elogios então. Elogios em francês, elogios mil.
- Olha, eu só vim pedir desculpas. Mas também você fica contando essas mentiras. E isso é...
- Excuse me.
Olhei pro lado e vi um cara alto de cabelo grisalho. Puta merda, era o Richard Gere!
- Lutcho, darling, come on. Let's go to San Francisco.
Lutcho abre a porta e salta para os braços do galã de Hollywood, que o acomoda no banco traseiro de um Jaguar estacionado em frente ao salão. E eu fico com aquela cara de "mas que porra é essa?". Nisso o sujeito da cadeira de rodas sobe à toda velocidade para o topo da rampa e de lá proclama:
- Corações aflitos, meu jovem! O mundo está cheio deles.
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15.2.10
O job do customer relationship management
por Pedro Ivo Resende
Chegava o final do mês e, como todos os outros funcionários da empresa, eu reclamava do salário. A diferença era que nunca trabalhei lá. Há uns cinco anos eu tinha sentido vontade de ir ao banheiro, pedi para usar o lavabo deles e acabei ficando. Encontrei uma cadeira vazia, uma pilha de papéis e uma velha máquina de escrever elétrica. Era o que eu precisava para começar a digitar meus relatórios, que ninguém lia. Ocasionalmente eu alternava essa função com uma outra, mais divertida: interromper reuniões de negócio com algumas frases de efeito.
- Me desculpe, senhores, mas o job do customer relationship management já está pronto?
- O quê?!
- O job do customer relationship management. Ele deve estar pronto on demand ou isso influenciará o downsizing do nosso share of mind no data-warehouse.
- Nós não estamos sabendo de nada.
- Eu escrevi um relatório sobre isso ontem, depois do staff meeting!! Seus corporate executives de merda. Todos vocês receberam!!
- A gente... A gente não recebeu.
- Não receberam, né? Vocês que sabem. O presidente da empresa vem amanhã aí. Se esse job não estiver pronto, anéis anorretais irão sangrar!!
Em questão de segundos todos os sujeitos começavam a revirar aquela papelada, procurando a porra do relatório. Entornavam latas de lixo, agrediam secretárias, tremiam de nervoso, empapuçavam o colarinho de suor. Um deles chegou inclusive a ter um ataque cardíaco, mas o meu advogado me instruiu a não comentar nada sobre este assunto. Depois desse incidente eu resolvi encontrar um novo hobby. Consistia em ficar plantado na entrada da empresa e espantar todos os nossos clientes com uma fantasia de bate-bola. Alguns deles eram mais corajosos e tentavam entrar assim mesmo. Mas nada que um spray paralisante não resolvesse. Quando fechamos o terceiro semestre com prejuízo por conta disso, eu escrevi um relatório culpando o Luciano do almoxarifado, que vinha tomando café demais. Fiz as contas de quanto o sujeito bebeu nos últimos três meses e sugeri que ele fosse enrolado em um casulo de fita crepe e papel almaço, sendo abandonado à própria sorte em algum canto da empresa. Mas como ninguém lê o que eu escrevo, não aconteceu nada.
De uns meses para cá eu comecei a me sentir meio inútil e decidi cuidar de uma impressora. Só que ela fazia muito barulho. "Cheeeng", "cheeeng", sabe como é? Eu ali parado o dia inteiro, sem ninguém pra conversar, ao lado daquela porra e ela fazendo "cheeeeng", "cheeeeng". Entornei um copo inteiro de café em cima da maldita máquina, que parou de fazer barulho. Algum espertalhão do suporte apareceu e começou a gritar que eu tinha quebrado a única impressora do andar. Mas obviamente o culpado era o Luciano do almoxarifado.
- Se ele tivesse bebido todo o café, nada disso teria acontecido.
Houve uma comoção geral em torno da impressora. Era uma Epson Fucking Advanced 3000, imprimia colorido todos os documentos, nunca deixou ninguém na mão. Uma mulher atirou um clips em mim e eu percebi que precisava fazer alguma coisa para acalmar os ânimos. Foi então que descobri como resolver aquele impasse: eu ia ficar circulando pelo escritório com um bloquinho.
- Ei, cara do bloquinho, tô precisando imprimir esse texto!
Daí eu copiava tudo o que estava escrito no monitor e deixava as folhas de papel em cima da mesa. Até ai tudo bem. Complicado era quando tinha alguma imagem no meio e eu precisava usar lápis de cor. Nunca soube desenhar direito. Passava o programa do Daniel Azulay na TV e eu, já velho, não conseguia fazer nada daquilo. Foda.
Toda essa minha nova função como impressora me absorveu muito. Eu praticamente morava no escritório, virando noites com o bloquinho e cada vez me distanciando mais da minha família. Tinha em casa uma esposa gorda, um poodle neurótico e um filho de olhos puxados que não se parecia muito comigo. Mas sentia falta deles mesmo assim. E como eu estava divido entre meu trabalho e família, achei melhor trazer eles para ficar comigo no escritório. Morar mesmo, entende? E foi assim que nos mudamos de vez. O Lucas, o meu filho com cara de japonês, fez de uma das salas de reunião o seu quarto. Pendurou um modelo Revell no teto e formatou o computador do chefe pra poder jogar Fifa Soccer. Minha gorda esposa pôs um fogão no meio da sala de engenharia. Chamou todas as amigas pra conhecer a casa nova. E por incrível que pareça, o pessoal do escritório parecia não dar a mínima. Estavam concentrados demais no trabalho para perceber o que acontecia à sua volta. O poodle cagando todo o corredor, o garoto roendo a unha do pé na recepção, a mulher passando a feiticeira no carpete; nada disso incomodava os funcionários.
Depois de uns meses o escritório fechou. Não foi culpa de mais um trimestre de prejuízo, da conjuntura econômica, nem tão pouco do Luciano do almoxarifado. Ao voltar de um almoço no domingo, percebemos que minha esposa esquecera a chave no escritório, trancado a gente do lado de fora. Na segunda-feira ninguém conseguiu entrar. E os dias foram se passando, os funcionários se amontoando na entrada, até que chegou a notícia: a empresa havia pedido concordata. Foi ai que decidimos ir ao bar mais próximo e nos reunir pela última vez. Enchemos a cara. A certa altura alguém sugeriu que fizéssemos uma roda de oração. Demos as mãos e, como nenhum de nós sabia rezar e todos ali já estavam bêbados, cantamos uma música triste do Chico Buarque. Não me lembro o nome. O que eu me lembro é do rosto daqueles colegas a quem aprendi a amar nestes últimos anos. Lembro-me de todos os momentos que compartilhamos juntos, das conquistas, das derrotas, do sentimento comum de fraternidade que nos unia em torno desta empresa. Mas com esse pequeno detalhe: eu nunca trabalhei lá.
Chegava o final do mês e, como todos os outros funcionários da empresa, eu reclamava do salário. A diferença era que nunca trabalhei lá. Há uns cinco anos eu tinha sentido vontade de ir ao banheiro, pedi para usar o lavabo deles e acabei ficando. Encontrei uma cadeira vazia, uma pilha de papéis e uma velha máquina de escrever elétrica. Era o que eu precisava para começar a digitar meus relatórios, que ninguém lia. Ocasionalmente eu alternava essa função com uma outra, mais divertida: interromper reuniões de negócio com algumas frases de efeito.
- Me desculpe, senhores, mas o job do customer relationship management já está pronto?
- O quê?!
- O job do customer relationship management. Ele deve estar pronto on demand ou isso influenciará o downsizing do nosso share of mind no data-warehouse.
- Nós não estamos sabendo de nada.
- Eu escrevi um relatório sobre isso ontem, depois do staff meeting!! Seus corporate executives de merda. Todos vocês receberam!!
- A gente... A gente não recebeu.
- Não receberam, né? Vocês que sabem. O presidente da empresa vem amanhã aí. Se esse job não estiver pronto, anéis anorretais irão sangrar!!
Em questão de segundos todos os sujeitos começavam a revirar aquela papelada, procurando a porra do relatório. Entornavam latas de lixo, agrediam secretárias, tremiam de nervoso, empapuçavam o colarinho de suor. Um deles chegou inclusive a ter um ataque cardíaco, mas o meu advogado me instruiu a não comentar nada sobre este assunto. Depois desse incidente eu resolvi encontrar um novo hobby. Consistia em ficar plantado na entrada da empresa e espantar todos os nossos clientes com uma fantasia de bate-bola. Alguns deles eram mais corajosos e tentavam entrar assim mesmo. Mas nada que um spray paralisante não resolvesse. Quando fechamos o terceiro semestre com prejuízo por conta disso, eu escrevi um relatório culpando o Luciano do almoxarifado, que vinha tomando café demais. Fiz as contas de quanto o sujeito bebeu nos últimos três meses e sugeri que ele fosse enrolado em um casulo de fita crepe e papel almaço, sendo abandonado à própria sorte em algum canto da empresa. Mas como ninguém lê o que eu escrevo, não aconteceu nada.
De uns meses para cá eu comecei a me sentir meio inútil e decidi cuidar de uma impressora. Só que ela fazia muito barulho. "Cheeeng", "cheeeng", sabe como é? Eu ali parado o dia inteiro, sem ninguém pra conversar, ao lado daquela porra e ela fazendo "cheeeeng", "cheeeeng". Entornei um copo inteiro de café em cima da maldita máquina, que parou de fazer barulho. Algum espertalhão do suporte apareceu e começou a gritar que eu tinha quebrado a única impressora do andar. Mas obviamente o culpado era o Luciano do almoxarifado.
- Se ele tivesse bebido todo o café, nada disso teria acontecido.
Houve uma comoção geral em torno da impressora. Era uma Epson Fucking Advanced 3000, imprimia colorido todos os documentos, nunca deixou ninguém na mão. Uma mulher atirou um clips em mim e eu percebi que precisava fazer alguma coisa para acalmar os ânimos. Foi então que descobri como resolver aquele impasse: eu ia ficar circulando pelo escritório com um bloquinho.
- Ei, cara do bloquinho, tô precisando imprimir esse texto!
Daí eu copiava tudo o que estava escrito no monitor e deixava as folhas de papel em cima da mesa. Até ai tudo bem. Complicado era quando tinha alguma imagem no meio e eu precisava usar lápis de cor. Nunca soube desenhar direito. Passava o programa do Daniel Azulay na TV e eu, já velho, não conseguia fazer nada daquilo. Foda.
Toda essa minha nova função como impressora me absorveu muito. Eu praticamente morava no escritório, virando noites com o bloquinho e cada vez me distanciando mais da minha família. Tinha em casa uma esposa gorda, um poodle neurótico e um filho de olhos puxados que não se parecia muito comigo. Mas sentia falta deles mesmo assim. E como eu estava divido entre meu trabalho e família, achei melhor trazer eles para ficar comigo no escritório. Morar mesmo, entende? E foi assim que nos mudamos de vez. O Lucas, o meu filho com cara de japonês, fez de uma das salas de reunião o seu quarto. Pendurou um modelo Revell no teto e formatou o computador do chefe pra poder jogar Fifa Soccer. Minha gorda esposa pôs um fogão no meio da sala de engenharia. Chamou todas as amigas pra conhecer a casa nova. E por incrível que pareça, o pessoal do escritório parecia não dar a mínima. Estavam concentrados demais no trabalho para perceber o que acontecia à sua volta. O poodle cagando todo o corredor, o garoto roendo a unha do pé na recepção, a mulher passando a feiticeira no carpete; nada disso incomodava os funcionários.
Depois de uns meses o escritório fechou. Não foi culpa de mais um trimestre de prejuízo, da conjuntura econômica, nem tão pouco do Luciano do almoxarifado. Ao voltar de um almoço no domingo, percebemos que minha esposa esquecera a chave no escritório, trancado a gente do lado de fora. Na segunda-feira ninguém conseguiu entrar. E os dias foram se passando, os funcionários se amontoando na entrada, até que chegou a notícia: a empresa havia pedido concordata. Foi ai que decidimos ir ao bar mais próximo e nos reunir pela última vez. Enchemos a cara. A certa altura alguém sugeriu que fizéssemos uma roda de oração. Demos as mãos e, como nenhum de nós sabia rezar e todos ali já estavam bêbados, cantamos uma música triste do Chico Buarque. Não me lembro o nome. O que eu me lembro é do rosto daqueles colegas a quem aprendi a amar nestes últimos anos. Lembro-me de todos os momentos que compartilhamos juntos, das conquistas, das derrotas, do sentimento comum de fraternidade que nos unia em torno desta empresa. Mas com esse pequeno detalhe: eu nunca trabalhei lá.
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15.1.10
Esperando pela suruba
por Pedro Ivo Resende
Domingo triste. Meu primo Hélio estava no hospital em estado crítico, esperando por um transplante de medula. Após alguns exames descobriram que eu era o único doador compatível. Saí de casa então para comprar jornal, devolver uns vídeos na locadora e fazer o tal do transplante. Mas foi aí que eu vi esse cartaz:
"Chegou a sua vez!
Já imaginou como seria estar cercado por belas mulheres e fazer aquele sexo sujo? Pois pare de sonhar e venha correndo para a nossa suruba. Sorteio de aparelhos eróticos, Cicciolina cover, lesbianismo gratuito.
Rua Jangadeiros, casa 40"
Peguei o primeiro táxi que apareceu na minha frente. Agüenta as pontas aí, primo Hélio! Estamos torcendo por você. E foi aí que, chegando no local, toquei a campainha e um senhor de uns sessenta anos apareceu numa janelinha da porta. Tinha um bigode enorme pendendo abaixo do nariz. Parecia que estava tentando engolir um castor. E a cauda, aquela enorme cauda, escapava pela boca.
- Sim?
- Ahnn... Aqui é Rua Jangadeiros, casa 40?
- Correto.
- Meu senhor, é a respeito de uma suruba.
- Suruba?
- Isso.
- Só um momento.
O homem fechou a janelinha. Era possível ouvir uma dessas músicas instrumentais que costumam tocar em consultórios médicos vindo lá de dentro. Após alguns instantes, ele voltou. Desta vez, junto com uma simpática senhora de cabelos grisalhos, que me convidou a entrar.
- Vamos, meu rapaz. Não se acanhe. Quer um refrigerante?
- Não, obrigado. Vem cá: é aqui que vai acontecer uma suruba?
- Sim, em alguns instantes. Por favor, me acompanhe até a sala.
Entrando na sala eu me deparei com uma cena bizarra. Um homem imenso, gordo, vestindo roupa e máscara de couro, sentado no sofá. No lugar da abertura para a boca havia um zíper. Ele segurava um chicote e parecia ter uns tiques nervosos. Putaquilparil, eu quero minha mãe.
- Este daqui é o Buba. Um ótimo rapaz. É mudo, coitado. Ele veio pelo mesmo motivo que você.
Buba soltou um grunhido. A baba escorria pelo zíper da sua máscara. Sentamos no sofá e ficamos ali vendo TV. Eu, o casal de senhores e Buba. Passava "E o Vento Levou". Queda de Atlanta, aquela porra toda pegando fogo.
- Minha senhora, somos apenas nós nesta suruba?
- Por enquanto sim, meu rapaz.
E o filme continuando. A protagonista rolava pela escada e perdia uma criança. Buba abriu o zíper da sua máscara e falou:
- Vivien Leigh está maravilhosa neste filme.
Todos nós ficamos olhando para ele. A senhora sorriu e bateu com as mãos em seu próprio colo.
- E nós achávamos que você era mudo...
- Não, não. Todo mundo sempre pensou isso. Mas é que até hoje eu nunca tinha encontrado nada de interessante para falar. Então preferia não dizer nada.
A senhora se virou para o seu marido, que lia o jornal em uma poltrona no canto da sala.
- Não é fabuloso, Jaime?
- O quê? Ah, sim, estupendo! Eu sou um constante fascinado pela condição humana.
E logo depois voltou para o nosso amigo mascarado, segurando em suas mãos:
- Buba, venha comigo, sim?
Buba grunhiu e, cambaleando feito um babuíno, desapareceu com a senhora por dentro de um corredor. Jaime continuava impassível, lendo o seu jornal. Alguns longos minutos depois, a simpática senhora apareceu de novo na sala, soltando um grito:
- Férias na Alemanha!!
Tremi no sofá de susto. Ela estava agora fantasiada com uma roupa folclórica alemã e prendia Buba em uma coleira, que por sua vez vestia um traje de tirolês por cima das suas vestimentas de couro. A senhora trazia consigo um álbum de fotografia.
- Vamos ver as fotos da viagem!?
Mais um grito e Buba, desta vez, grunhiu e regurgitou alguns goles de baba. Antes que a senhora abrisse o tal álbum ou a boca, eu já tinha saído da casa. Estava quase na rua quando encontrei essas três mulheres. Três lindas garotas, dessas que jamais dirigiriam a palavra a mim.
- Oi, por favor, é aqui que vai acontecer uma suruba?
Estava calor e pequenas gotas de suor escorriam pelo corpo delas. Eu gaguejei alguma coisa e abri a porta. As mulheres entraram e foram indo para a sala. A simpática senhora, fantasiada de alemã, fechou o álbum e exibiu um sorriso convidativo.
- Sejam bem-vindas ao nosso sexo grupal.
Eu comecei a tirar a minha roupa. Camisa, calça, sapato; foi tudo ficando pelo chão mesmo. Buba desabotoou o seu traje. A simpática senhora se livrou das roupas de alemã, revelando, em poucos instantes, as suas tetas murchas que lembravam duas azeitonas secas. As lindas garotas, tímidas a princípio, logo se animaram e começaram a tirar o sapato. E eu simplesmente não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Transar com essas mulheres seria a realização de um sonho absurdo, a concretização de uma realidade impossível. Tão impossível que, se eu realmente comesse elas, provavelmente romperia alguma lei fundamental da física. Mas aquilo estava acontecendo. As meninas se despindo, tirando as camisas... O clima de erotismo invadia a sala. A única figura que destoava daquela cena era o nosso amigo Jaime, que permanecia sentado na sua poltrona. E logo quando as meninas iam se livrar do soutien, ele se levantou e disse:
- Meus caros, e se dançássemos a polca?
"A polca?". "É, aquela dança tradicional da Polônia". Todos adoraram a idéia. Eu ali, semi-nu, cercado por lindas mulheres e a simpática senhora filha de uma puta indo pôr um disco de polca na vitrola. Ainda com suas tetas murchas expostas, ela começa a estalar os dedos para aquela música estúpida. As garotas, Buba, Jaime e a simpática senhora formaram pares de dança. E eu não tinha ninguém para dançar. Eu não conhecia a polca. Eu não ia comer ninguém. Era hora de ir embora. Precisava ainda fazer um transplante. Olhei para TV e vi que "E o Vento Levou..." estava acabando. Porra, as fitas de vídeo! Precisava devolver as malditas fitas de vídeo. Bem, deixa o transplante para depois então. Porque, como diria Scarlett O´Hara, amanhã é um novo dia, primo Hélio, amanhã é um novo dia...
Domingo triste. Meu primo Hélio estava no hospital em estado crítico, esperando por um transplante de medula. Após alguns exames descobriram que eu era o único doador compatível. Saí de casa então para comprar jornal, devolver uns vídeos na locadora e fazer o tal do transplante. Mas foi aí que eu vi esse cartaz:
"Chegou a sua vez!
Já imaginou como seria estar cercado por belas mulheres e fazer aquele sexo sujo? Pois pare de sonhar e venha correndo para a nossa suruba. Sorteio de aparelhos eróticos, Cicciolina cover, lesbianismo gratuito.
Rua Jangadeiros, casa 40"
Peguei o primeiro táxi que apareceu na minha frente. Agüenta as pontas aí, primo Hélio! Estamos torcendo por você. E foi aí que, chegando no local, toquei a campainha e um senhor de uns sessenta anos apareceu numa janelinha da porta. Tinha um bigode enorme pendendo abaixo do nariz. Parecia que estava tentando engolir um castor. E a cauda, aquela enorme cauda, escapava pela boca.
- Sim?
- Ahnn... Aqui é Rua Jangadeiros, casa 40?
- Correto.
- Meu senhor, é a respeito de uma suruba.
- Suruba?
- Isso.
- Só um momento.
O homem fechou a janelinha. Era possível ouvir uma dessas músicas instrumentais que costumam tocar em consultórios médicos vindo lá de dentro. Após alguns instantes, ele voltou. Desta vez, junto com uma simpática senhora de cabelos grisalhos, que me convidou a entrar.
- Vamos, meu rapaz. Não se acanhe. Quer um refrigerante?
- Não, obrigado. Vem cá: é aqui que vai acontecer uma suruba?
- Sim, em alguns instantes. Por favor, me acompanhe até a sala.
Entrando na sala eu me deparei com uma cena bizarra. Um homem imenso, gordo, vestindo roupa e máscara de couro, sentado no sofá. No lugar da abertura para a boca havia um zíper. Ele segurava um chicote e parecia ter uns tiques nervosos. Putaquilparil, eu quero minha mãe.
- Este daqui é o Buba. Um ótimo rapaz. É mudo, coitado. Ele veio pelo mesmo motivo que você.
Buba soltou um grunhido. A baba escorria pelo zíper da sua máscara. Sentamos no sofá e ficamos ali vendo TV. Eu, o casal de senhores e Buba. Passava "E o Vento Levou". Queda de Atlanta, aquela porra toda pegando fogo.
- Minha senhora, somos apenas nós nesta suruba?
- Por enquanto sim, meu rapaz.
E o filme continuando. A protagonista rolava pela escada e perdia uma criança. Buba abriu o zíper da sua máscara e falou:
- Vivien Leigh está maravilhosa neste filme.
Todos nós ficamos olhando para ele. A senhora sorriu e bateu com as mãos em seu próprio colo.
- E nós achávamos que você era mudo...
- Não, não. Todo mundo sempre pensou isso. Mas é que até hoje eu nunca tinha encontrado nada de interessante para falar. Então preferia não dizer nada.
A senhora se virou para o seu marido, que lia o jornal em uma poltrona no canto da sala.
- Não é fabuloso, Jaime?
- O quê? Ah, sim, estupendo! Eu sou um constante fascinado pela condição humana.
E logo depois voltou para o nosso amigo mascarado, segurando em suas mãos:
- Buba, venha comigo, sim?
Buba grunhiu e, cambaleando feito um babuíno, desapareceu com a senhora por dentro de um corredor. Jaime continuava impassível, lendo o seu jornal. Alguns longos minutos depois, a simpática senhora apareceu de novo na sala, soltando um grito:
- Férias na Alemanha!!
Tremi no sofá de susto. Ela estava agora fantasiada com uma roupa folclórica alemã e prendia Buba em uma coleira, que por sua vez vestia um traje de tirolês por cima das suas vestimentas de couro. A senhora trazia consigo um álbum de fotografia.
- Vamos ver as fotos da viagem!?
Mais um grito e Buba, desta vez, grunhiu e regurgitou alguns goles de baba. Antes que a senhora abrisse o tal álbum ou a boca, eu já tinha saído da casa. Estava quase na rua quando encontrei essas três mulheres. Três lindas garotas, dessas que jamais dirigiriam a palavra a mim.
- Oi, por favor, é aqui que vai acontecer uma suruba?
Estava calor e pequenas gotas de suor escorriam pelo corpo delas. Eu gaguejei alguma coisa e abri a porta. As mulheres entraram e foram indo para a sala. A simpática senhora, fantasiada de alemã, fechou o álbum e exibiu um sorriso convidativo.
- Sejam bem-vindas ao nosso sexo grupal.
Eu comecei a tirar a minha roupa. Camisa, calça, sapato; foi tudo ficando pelo chão mesmo. Buba desabotoou o seu traje. A simpática senhora se livrou das roupas de alemã, revelando, em poucos instantes, as suas tetas murchas que lembravam duas azeitonas secas. As lindas garotas, tímidas a princípio, logo se animaram e começaram a tirar o sapato. E eu simplesmente não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Transar com essas mulheres seria a realização de um sonho absurdo, a concretização de uma realidade impossível. Tão impossível que, se eu realmente comesse elas, provavelmente romperia alguma lei fundamental da física. Mas aquilo estava acontecendo. As meninas se despindo, tirando as camisas... O clima de erotismo invadia a sala. A única figura que destoava daquela cena era o nosso amigo Jaime, que permanecia sentado na sua poltrona. E logo quando as meninas iam se livrar do soutien, ele se levantou e disse:
- Meus caros, e se dançássemos a polca?
"A polca?". "É, aquela dança tradicional da Polônia". Todos adoraram a idéia. Eu ali, semi-nu, cercado por lindas mulheres e a simpática senhora filha de uma puta indo pôr um disco de polca na vitrola. Ainda com suas tetas murchas expostas, ela começa a estalar os dedos para aquela música estúpida. As garotas, Buba, Jaime e a simpática senhora formaram pares de dança. E eu não tinha ninguém para dançar. Eu não conhecia a polca. Eu não ia comer ninguém. Era hora de ir embora. Precisava ainda fazer um transplante. Olhei para TV e vi que "E o Vento Levou..." estava acabando. Porra, as fitas de vídeo! Precisava devolver as malditas fitas de vídeo. Bem, deixa o transplante para depois então. Porque, como diria Scarlett O´Hara, amanhã é um novo dia, primo Hélio, amanhã é um novo dia...
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25.12.09
Todos os Baiacus merecem o céu
por Pedro Ivo Resende
O Caio ganhou um Nintendo, o Flavinho um autorama do Piquet. E eu, bem, eu rasguei o meu embrulho, abri a caixa e descobri que ganhara um baiacu morto. Junto vinha um manual de instruções, com apenas uma frase: “Produto não comestível”. Também pudera: o bicho já estava podre, com os olhos brancos. Fedia pra cacete. Não sabia o que fazer com aquilo. Achei melhor levá-lo até o meu pai e perguntar isso para ele.
- Pai, ganhei um baiacu de natal. O que eu faço?
- Bem, ele está morto?
- Sim.
- Então devemos organizar um funeral apropriado para ele. É o que há de decente a ser feito.
Meu pai me deu um tapinha nas costas e explicou o propósito do presente. Segundo ele era algo para me ensinar a lidar com a morte, com a perda. E sabe, até que não era tão ruim. Enquanto o Flavinho encaixava as pistas do seu autorama do Piquet, eu montava o caixão do baiacu com tábuas de compensado.
- Pai, existe um céu para os baiacus?
Chamei todos para comparecerem ao meu pequeno funeral, mas a família inteira estava ocupada demais com a ceia e os presentes. O único que se dispôs a ir foi o jovem papai-noel, que se sentia meio deslocado na festa. Ele olhou todos os preparativos e abaixou a cabeça, com pesar. Estava visivelmente emocionado quando comecei o meu discurso.
- Um sonho interrompido, cortinas que se fecham em meio a um ato. Alguém que tinha a tanto a oferecer e partiu tão cedo...
O papai-noel fajuto - contratado pra festa - resolveu também participar.
- Baiacu honesto, nunca fez mal a ninguém.
- Isso! Sempre que precisávamos de um companheiro, lá estava ele com uma palavra amiga.
- Bem-humorado, piadista... Era um fanfarrão, mas não mexia com a mulher dos outros.
- E mesmo assim, partiu. Por que, por quê?!
Ajoelhei-me no chão, fechei os olhos e fingi que estava chorando. Quando me levantei, vi que o papai-noel tinha retirado o baiacu do caixão e o segurava pelo rabo. Ele passava os olhos pelo peixe com um olhar curioso.
- Ei, garoto, isso daqui não é um baiacu.
- Como assim?
- É um bacalhau. E está gelado, cheio de tempero. Seu pai deve ter tirado ele da geladeira.
Jogamos o peixe no mato e voltamos à festa. Nos confraternizamos com os convidados, comemos, dançamos; tudo isto com um espírito revigorado. Porque além do nascimento do Deus-menino, tínhamos muito a comemorar naquela noite. Afinal, o baiacu não morrera.
- Um brinde ao baiacu, aquele peixe sapeca.
- Sempre nos pregando uma peça. Tim-tim!
O Caio ganhou um Nintendo, o Flavinho um autorama do Piquet. E eu, bem, eu rasguei o meu embrulho, abri a caixa e descobri que ganhara um baiacu morto. Junto vinha um manual de instruções, com apenas uma frase: “Produto não comestível”. Também pudera: o bicho já estava podre, com os olhos brancos. Fedia pra cacete. Não sabia o que fazer com aquilo. Achei melhor levá-lo até o meu pai e perguntar isso para ele.
- Pai, ganhei um baiacu de natal. O que eu faço?
- Bem, ele está morto?
- Sim.
- Então devemos organizar um funeral apropriado para ele. É o que há de decente a ser feito.
Meu pai me deu um tapinha nas costas e explicou o propósito do presente. Segundo ele era algo para me ensinar a lidar com a morte, com a perda. E sabe, até que não era tão ruim. Enquanto o Flavinho encaixava as pistas do seu autorama do Piquet, eu montava o caixão do baiacu com tábuas de compensado.
- Pai, existe um céu para os baiacus?
Chamei todos para comparecerem ao meu pequeno funeral, mas a família inteira estava ocupada demais com a ceia e os presentes. O único que se dispôs a ir foi o jovem papai-noel, que se sentia meio deslocado na festa. Ele olhou todos os preparativos e abaixou a cabeça, com pesar. Estava visivelmente emocionado quando comecei o meu discurso.
- Um sonho interrompido, cortinas que se fecham em meio a um ato. Alguém que tinha a tanto a oferecer e partiu tão cedo...
O papai-noel fajuto - contratado pra festa - resolveu também participar.
- Baiacu honesto, nunca fez mal a ninguém.
- Isso! Sempre que precisávamos de um companheiro, lá estava ele com uma palavra amiga.
- Bem-humorado, piadista... Era um fanfarrão, mas não mexia com a mulher dos outros.
- E mesmo assim, partiu. Por que, por quê?!
Ajoelhei-me no chão, fechei os olhos e fingi que estava chorando. Quando me levantei, vi que o papai-noel tinha retirado o baiacu do caixão e o segurava pelo rabo. Ele passava os olhos pelo peixe com um olhar curioso.
- Ei, garoto, isso daqui não é um baiacu.
- Como assim?
- É um bacalhau. E está gelado, cheio de tempero. Seu pai deve ter tirado ele da geladeira.
Jogamos o peixe no mato e voltamos à festa. Nos confraternizamos com os convidados, comemos, dançamos; tudo isto com um espírito revigorado. Porque além do nascimento do Deus-menino, tínhamos muito a comemorar naquela noite. Afinal, o baiacu não morrera.
- Um brinde ao baiacu, aquele peixe sapeca.
- Sempre nos pregando uma peça. Tim-tim!
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22.7.08
O Funk do Golfe
por Pedro Ivo Resende
Subi a Rocinha no meu carrinho elétrico. Além de uma bolsa de tacos, carregava comigo o intuito filantrópico de ensinar crianças carentes da favela a jogar golfe. Assim que cheguei lá, um sujeito me abordou:
- O que faz por aqui?
- Vim transformar a vida das crianças carentes.
- Me leva contigo então.
- Veja bem, eu acho que não vai dar. Você já não é mais criança.
- Mas sou carente.
Senti uma pena mortal do camarada e o acomodei no banco da frente. Pedi para ele dar um nome de mulher à bolsa de tacos e abraçá-la. O sujeito me fitou com um olhar de medo e a gente não tocou mais nesse assunto.
Passamos a nos ocupar em procurar menores abandonados. Subimos e descemos ladeiras, dobramos esquinas. Comprei duas latas de cola de sapateiro, pus em frente a um fliperama e fiquei esperando uns quarenta minutos. Nada de criança carente. Até que tive um estalo: elas só poderiam estar no colégio. Voltei pro meu carrinho de golfe e dirigi até a escola pública mais próxima. Pulei o muro, junto com meu novo amigo, e invadi uma sala de aula. A professora estava no meio de um problema matemático quando eu entrei gritando na sala:
- Quem quer aprender a jogar golfe!?
A turma toda foi tomada pelo silêncio. Após alguns instantes, um garotinho levantou timidamente o braço no fundo da sala.
- Ei, garoto. É, você mesmo, com o braço levantado. Não vai dar, viu?
- Por que, tio?
- Porque, bem... Deixa eu te explicar uma coisa: crianças em cadeira de rodas não jogam golfe. Fica pra próxima, campeão.
O guri abaixou a cabeça e chorou. Anos depois ele se tornou um cineasta de sucesso, foi premiado em Gramado e me mandou tomar no cu na entrega do Kikito. Minha mãe tem isso gravado em VHS. Mas voltemos à sala de aula. O garoto estava chorando, blá blá blá, e eu aproveitei a deixa para conversar com outro amiguinho.
- Qual o seu nome, garoto?
- Lucas.
- Tá. Me conta uma coisa, Lucas: você gosta de matemática?
- Sim.
- Conhece algum matemático que tenha namorado uma modelo famosa?
- Não.
- Me conta uma coisa, Lucas: você gosta de matemática?
- Não.
Os pirralhos se entreolharam e começaram a ficar inquietos, perturbados. Um menino investiu a lixeira contra a janela, estilhaçando o vidro. O guri da cadeira de rodas ateou fogo numa carteira e saiu, à toda velocidade, pelo corredor. Uma garotinha enfiou o dedo na garganta e vomitou no canto da sala. Era uma cena assustadora. Tive medo e fui conversar com o Lucas.
- Tá vendo? Isso tudo é culpa sua, garoto.
- Não, tio. Eles sempre fazem isso antes do recreio.
- Ah, tudo bem...
Olhei para trás e percebi que a professora desaparecera, deixando escrito no quadro negro uma equação: "Golfe x T + P + M = Quero que vocês todos morram". Apaguei aquilo e escrevi o telefone lá de casa. Quem sabe dia desses ela não me liga? Mas tudo bem, a criançada já estava descendo pro recreio e a gente podia finalmente ir embora.
A turma estava toda reunida no pátio. Mesmo assim eu sentia que faltava alguma coisa. Parei, sentei num banco e fiquei ali pensando, matutando. Pensei pra cacete. Descobri como criar um mundo melhor a partir uma nova forma de energia limpa. Mas bosta, não era isso. Precisava saber o que estava faltando ali... Continuei pensando até que, eureca, me lembrei: a bolsa de golfe, a porra da bolsa de golfe! Deixei ela com o sujeito carente, que havia sumido. Larguei a petizada por lá mesmo e rodei a escola atrás dele. Encontrei-o numa aula de Estudos Sociais.
- Sujeito carente, vamos embora daqui! Tava te procurando feito um louco.
- E eu também, mas agora eu me encontrei. Vou começar uma nova vida, aprender uma profissão, ser alguém.
- Tá bom, tá bom. Só me passa aquela bolsa com os tacos, ok?
- Bolsa não. Ela tem nome: Maria Fernanda.
Peguei os tacos e voltei pro pátio. Os guris estavam dispersos, espalhados. Tentei chamá-los para jogar golfe, mas ninguém me deu muita atenção. Nisso eu me lembrei de um velho método piagetiano.
- Aê, cambada de saco-liso, quem quer comer no McDonald´s?
Em poucos segundos toda a garotada parou o que estava fazendo e compôs uma fila indiana, organizada por ordem alfabética. Atravessamos a rua e fomos para o McDonald´s mais próximo. Quando entramos na lanchonete, eu tirei do bolso um pacote de cream-cracker e distribuí para as crianças, que não entenderam o que estava se passando.
- Vamos lá, vocês não queriam comer aqui? Engole logo isso, caceta, a gente não tem o dia todo.
Entre choros e protestos, fomos para a favela. Subimos até um plano descampado, onde eu abri a bolsa com os tacos e já ia me preparando para ensinar as minhas primeiras lições. Só que esse garoto, esse bostinha, apareceu do nada e começou a andar em volta de mim, pulando e cantando.
- "Dança, dançá, a dança do golfiiii!"
- O que é isso? Um funk?
- "Dança, dançá, a dança do golfiiii!"
- Ei, ei, menino, para com essa porra. É golfê, caceta, com "ê" no final.
- "Tu vai tomá de ar-quinziii se não dançá, dançá, a dança do golfiii"
- Olha aí, moleque: se não parar com isso, eu jogo você na lagoa e te atropelo de pedalinho. Tô avisando.
E o que era apenas um garoto virou uma massa funkeira. Primeiro foi a pirralhada engrossando o coro, mas depois os próprios moradores começaram a aparecer para ver o que estava acontecendo. Alguns batiam palmas e balançavam a cabeça, mas quase todos eles dançavam a dança do golfi, dando voltas em torno de mim. Daí vieram os instrumentos, o cheiro de feijoada e um repórter da rádio comunitária. O céu escurecendo, eu ali com vontade de ir ao banheiro e sem poder sair daquela roda. A única coisa que podia fazer era me arrepender. Me arrepender de ter inventado esse pretexto babaca de ensinar golfe na favela. Porque da próxima vez em que eu precisar comprar maconha para dar de Natal pra vovó, eu subo o morro e vou direto à boca.
Subi a Rocinha no meu carrinho elétrico. Além de uma bolsa de tacos, carregava comigo o intuito filantrópico de ensinar crianças carentes da favela a jogar golfe. Assim que cheguei lá, um sujeito me abordou:
- O que faz por aqui?
- Vim transformar a vida das crianças carentes.
- Me leva contigo então.
- Veja bem, eu acho que não vai dar. Você já não é mais criança.
- Mas sou carente.
Senti uma pena mortal do camarada e o acomodei no banco da frente. Pedi para ele dar um nome de mulher à bolsa de tacos e abraçá-la. O sujeito me fitou com um olhar de medo e a gente não tocou mais nesse assunto.
Passamos a nos ocupar em procurar menores abandonados. Subimos e descemos ladeiras, dobramos esquinas. Comprei duas latas de cola de sapateiro, pus em frente a um fliperama e fiquei esperando uns quarenta minutos. Nada de criança carente. Até que tive um estalo: elas só poderiam estar no colégio. Voltei pro meu carrinho de golfe e dirigi até a escola pública mais próxima. Pulei o muro, junto com meu novo amigo, e invadi uma sala de aula. A professora estava no meio de um problema matemático quando eu entrei gritando na sala:
- Quem quer aprender a jogar golfe!?
A turma toda foi tomada pelo silêncio. Após alguns instantes, um garotinho levantou timidamente o braço no fundo da sala.
- Ei, garoto. É, você mesmo, com o braço levantado. Não vai dar, viu?
- Por que, tio?
- Porque, bem... Deixa eu te explicar uma coisa: crianças em cadeira de rodas não jogam golfe. Fica pra próxima, campeão.
O guri abaixou a cabeça e chorou. Anos depois ele se tornou um cineasta de sucesso, foi premiado em Gramado e me mandou tomar no cu na entrega do Kikito. Minha mãe tem isso gravado em VHS. Mas voltemos à sala de aula. O garoto estava chorando, blá blá blá, e eu aproveitei a deixa para conversar com outro amiguinho.
- Qual o seu nome, garoto?
- Lucas.
- Tá. Me conta uma coisa, Lucas: você gosta de matemática?
- Sim.
- Conhece algum matemático que tenha namorado uma modelo famosa?
- Não.
- Me conta uma coisa, Lucas: você gosta de matemática?
- Não.
Os pirralhos se entreolharam e começaram a ficar inquietos, perturbados. Um menino investiu a lixeira contra a janela, estilhaçando o vidro. O guri da cadeira de rodas ateou fogo numa carteira e saiu, à toda velocidade, pelo corredor. Uma garotinha enfiou o dedo na garganta e vomitou no canto da sala. Era uma cena assustadora. Tive medo e fui conversar com o Lucas.
- Tá vendo? Isso tudo é culpa sua, garoto.
- Não, tio. Eles sempre fazem isso antes do recreio.
- Ah, tudo bem...
Olhei para trás e percebi que a professora desaparecera, deixando escrito no quadro negro uma equação: "Golfe x T + P + M = Quero que vocês todos morram". Apaguei aquilo e escrevi o telefone lá de casa. Quem sabe dia desses ela não me liga? Mas tudo bem, a criançada já estava descendo pro recreio e a gente podia finalmente ir embora.
A turma estava toda reunida no pátio. Mesmo assim eu sentia que faltava alguma coisa. Parei, sentei num banco e fiquei ali pensando, matutando. Pensei pra cacete. Descobri como criar um mundo melhor a partir uma nova forma de energia limpa. Mas bosta, não era isso. Precisava saber o que estava faltando ali... Continuei pensando até que, eureca, me lembrei: a bolsa de golfe, a porra da bolsa de golfe! Deixei ela com o sujeito carente, que havia sumido. Larguei a petizada por lá mesmo e rodei a escola atrás dele. Encontrei-o numa aula de Estudos Sociais.
- Sujeito carente, vamos embora daqui! Tava te procurando feito um louco.
- E eu também, mas agora eu me encontrei. Vou começar uma nova vida, aprender uma profissão, ser alguém.
- Tá bom, tá bom. Só me passa aquela bolsa com os tacos, ok?
- Bolsa não. Ela tem nome: Maria Fernanda.
Peguei os tacos e voltei pro pátio. Os guris estavam dispersos, espalhados. Tentei chamá-los para jogar golfe, mas ninguém me deu muita atenção. Nisso eu me lembrei de um velho método piagetiano.
- Aê, cambada de saco-liso, quem quer comer no McDonald´s?
Em poucos segundos toda a garotada parou o que estava fazendo e compôs uma fila indiana, organizada por ordem alfabética. Atravessamos a rua e fomos para o McDonald´s mais próximo. Quando entramos na lanchonete, eu tirei do bolso um pacote de cream-cracker e distribuí para as crianças, que não entenderam o que estava se passando.
- Vamos lá, vocês não queriam comer aqui? Engole logo isso, caceta, a gente não tem o dia todo.
Entre choros e protestos, fomos para a favela. Subimos até um plano descampado, onde eu abri a bolsa com os tacos e já ia me preparando para ensinar as minhas primeiras lições. Só que esse garoto, esse bostinha, apareceu do nada e começou a andar em volta de mim, pulando e cantando.
- "Dança, dançá, a dança do golfiiii!"
- O que é isso? Um funk?
- "Dança, dançá, a dança do golfiiii!"
- Ei, ei, menino, para com essa porra. É golfê, caceta, com "ê" no final.
- "Tu vai tomá de ar-quinziii se não dançá, dançá, a dança do golfiii"
- Olha aí, moleque: se não parar com isso, eu jogo você na lagoa e te atropelo de pedalinho. Tô avisando.
E o que era apenas um garoto virou uma massa funkeira. Primeiro foi a pirralhada engrossando o coro, mas depois os próprios moradores começaram a aparecer para ver o que estava acontecendo. Alguns batiam palmas e balançavam a cabeça, mas quase todos eles dançavam a dança do golfi, dando voltas em torno de mim. Daí vieram os instrumentos, o cheiro de feijoada e um repórter da rádio comunitária. O céu escurecendo, eu ali com vontade de ir ao banheiro e sem poder sair daquela roda. A única coisa que podia fazer era me arrepender. Me arrepender de ter inventado esse pretexto babaca de ensinar golfe na favela. Porque da próxima vez em que eu precisar comprar maconha para dar de Natal pra vovó, eu subo o morro e vou direto à boca.
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pedro ivo resende
16.1.08
Não existe abraço grátis
por Pedro Ivo Resende
Rodolfo, o espírito de porco. Fazia sinal para os ônibus pararem com uma saudação nazista.
- Rodolfo, você nem sabe o que aconteceu. Pra começar, paguei muito barato nesse celular. Adivinha quanto foi!
- Uns três reais.
- Assim também não. Nenhum celular é tão barato. Paguei cento e cinqüenta reais.
- É um preço razoável.
- Mas escuta, fui conversar com o vendedor da loja e ele me pediu quinhentos reais. E tinha que pagar à vista. Aí eu virei pra ele e disse "Vai tomar no cu, quinhentos reais é um absurdo!".
- Posso fazer um parêntese?
- Sim.
- Você não falou "vai tomar no cu" na hora. Pode até ter pensado nisso, mas não falou. Não teve a coragem. As pessoas sempre se põem como os grandes heróis das histórias que contam.
- É... Na verdade eu conversei com ele numa boa. Gostei do cara. Parcelamos o aparelho em três vezes de cento e cinqüenta. Mas você não sabe da maior! Quando fui pagar, eu ganhei uma promoção e levei esse outro celular de graça. Olha só, não foi legal?
- Sim, foi legal, mas só para você que ganhou o prêmio. Eu não achei legal. Fiquei com uma ponta de inveja, para falar a verdade.
- Mas por quê? Você não fica contente pelos seus amigos?
- Não, pelo contrário. Eu até gosto de você mas, por exemplo, quando sua mulher te largou, meu coração se encheu de alegria. Foi um dia especial. Você passou a ser um fudido, como eu. Não estava mais sozinho no clube.
- Meu deus, você é um monstro!
- Um monstrinho.
- Um monstro desprezível.
- Um monstrinho afável.
- Um monstro desprezível e perverso.
- Um monstrinho afável que precisa de um abraço. Ele está se desculpando com você.
- Bem... eu não sei.
- Vamos lá, anda.
Os dois amigos se abraçam. São de momentos como estes que a vida é feita. Eles se desvencilham e Rodolfo aproveita para preencher o vácuo do momento com um comentário saudosista.
- Lembra quando você estava se recuperando de uma ponte de safena e eu te mandei um presente?
- Lembro, lógico. Foi aquela latinha que, quando você abria, pulava uma cobra lá de dentro. Eu tomei um susto e precisei voltar para a sala de cirurgia. Mas isso não importa, você se lembrou de mim, mostrou que se importa.
- Pois então: mais um abraço pro monstrinho aqui?
- Não, chega Rodolfo!
Rodolfo, o espírito de porco. Fazia sinal para os ônibus pararem com uma saudação nazista.
- Rodolfo, você nem sabe o que aconteceu. Pra começar, paguei muito barato nesse celular. Adivinha quanto foi!
- Uns três reais.
- Assim também não. Nenhum celular é tão barato. Paguei cento e cinqüenta reais.
- É um preço razoável.
- Mas escuta, fui conversar com o vendedor da loja e ele me pediu quinhentos reais. E tinha que pagar à vista. Aí eu virei pra ele e disse "Vai tomar no cu, quinhentos reais é um absurdo!".
- Posso fazer um parêntese?
- Sim.
- Você não falou "vai tomar no cu" na hora. Pode até ter pensado nisso, mas não falou. Não teve a coragem. As pessoas sempre se põem como os grandes heróis das histórias que contam.
- É... Na verdade eu conversei com ele numa boa. Gostei do cara. Parcelamos o aparelho em três vezes de cento e cinqüenta. Mas você não sabe da maior! Quando fui pagar, eu ganhei uma promoção e levei esse outro celular de graça. Olha só, não foi legal?
- Sim, foi legal, mas só para você que ganhou o prêmio. Eu não achei legal. Fiquei com uma ponta de inveja, para falar a verdade.
- Mas por quê? Você não fica contente pelos seus amigos?
- Não, pelo contrário. Eu até gosto de você mas, por exemplo, quando sua mulher te largou, meu coração se encheu de alegria. Foi um dia especial. Você passou a ser um fudido, como eu. Não estava mais sozinho no clube.
- Meu deus, você é um monstro!
- Um monstrinho.
- Um monstro desprezível.
- Um monstrinho afável.
- Um monstro desprezível e perverso.
- Um monstrinho afável que precisa de um abraço. Ele está se desculpando com você.
- Bem... eu não sei.
- Vamos lá, anda.
Os dois amigos se abraçam. São de momentos como estes que a vida é feita. Eles se desvencilham e Rodolfo aproveita para preencher o vácuo do momento com um comentário saudosista.
- Lembra quando você estava se recuperando de uma ponte de safena e eu te mandei um presente?
- Lembro, lógico. Foi aquela latinha que, quando você abria, pulava uma cobra lá de dentro. Eu tomei um susto e precisei voltar para a sala de cirurgia. Mas isso não importa, você se lembrou de mim, mostrou que se importa.
- Pois então: mais um abraço pro monstrinho aqui?
- Não, chega Rodolfo!
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