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– Dr Timothy Leary
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“Welcome to the most ancient conspiracy on the planet. We’ve gone for so long now that we don’t remember what we were doing, but we don’t want to stop because we have nothing better to do.” - Fire Elemental
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20.5.10
O riso como via de acesso ao criativo transformador (texto sagrado do Delarismo) - parte 2
Parte 1
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Diante do paradoxo e da indivisibilidade da vida, com seus pares de opostos, outros autores assinalam a ambivalência do riso, que este pode ter como fonte uma dor, uma defesa, um temor, mas ao mesmo tempo uma sabedoria. H. Adorno já afirmou que o riso sereno ou terrível marca sempre o momento em que desaparece um temor. Afirmou Platão, em A República, que ”um acesso excessivo de riso quase sempre produz uma reação violenta” (ibidem, p.4). De fato, ainda é difícil definir o senso de humor, embora Shopenhauer já tenha afirmado que a única qualidade divina de um homem era o seu senso de humor. Por outro lado, sabemos que o ser humano é um ser lúdico, ele é apenas completamente humano quando está brincando, um importante anseio humano é o de jogar.
Mas, o que significa o humor? Indicando algo que flui, líquido, a palavra “humor” simboliza também o movimento de forças inconscientes que gradualmente se desenvolvem, porém o “senso de humor” em si pode se originar no senso de proporção das partes com o todo, tanto no mundo externo como interno. Para haver senso de humor maduro deverá haver, além do riso, consciência e afetividade. Charles Williams, no seu livro All Hallow’s eve (apud Luke, 1992, p.16) considerava que “aqueles que apreciam e compreendem, penetram no riso, no coração das coisas. A humildade está intimamente relacionada com senso de humor”. Há muitos tipos de riso, ele pode ocultar uma rejeição destrutiva ou o desprezo, e quando nos rendemos a isto perdemos o senso de humor, que sempre fortalece a compaixão, onde todas as nossas dores e alegrias se tornam inteiras. Ressentimentos, humilhações, culpas, etc. podem ser aceitos com dor e conhecidos também como ocasiões para o riso que cura.
Ainda segundo Williams, no meio da dor emocional é importante manter o senso de humor sobre a própria importância e a dos outros, com a intenção de alegria. Quando nos sentimos absolutamente comuns, adquirimos a simplicidade e o senso de humor; assim, poderemos começar a brincar na liberdade e na simplicidade da criança, poderemos alcançar a filosofia do momento, também defendida por J. L. Moreno, e vivermos no aqui e agora, com o espírito presente em cada momento, sabendo o que realmente se é.
Quando Jesus Cristo diz que “aquele que não receber o reino de Deus como uma criança pequena, nele não entrará” (São Marcos, 10:15), estava se referindo a esta sabedoria divina do riso. Jung considerava que, além da ética essencial, além da beleza da ciência, filosofia, psicologia e teologia, além de todos os esforços da humanidade para compreender o bem e o mal, ainda restava uma porta final para encontrar a liberdade: o caminho para a brincadeira espontânea, não imatura, mas inocente, do espírito feminino. Segundo Luke (1992, p. 17), sem isto não haverá “qualquer criação que conheça a eternidade, depois da longa jornada de retorno, na dimensão do tempo. Ela está e sempre esteve brincando no mundo, na alegria da Criança escondida em cada um de nós”. É quando se encontra a liberdade de todas as convenções e não se importa mais em mostrar as deficiências, como um palhaço. O Tolo ou a Criança dentro de nós nunca é ingênua, pois é a própria sabedoria brincando no mundo.
J. L. Moreno, por sua vez, acreditava nesta criança eterna e livre que deveria ser despertada, com sua centelha divina da espontaneidade, desenvolvendo seu método para trabalhar o acesso a este senso de humor, a este riso, a esta alegria, esta criança livre do aprisionamento das conservas culturais. Ao trabalhar numa realidade suplementar, Moreno valorizava o poder do mágico, do ilusionista, da liberdade transformista de multiplicar formas e possibilidades, produtora de mundos impensados. Neste ponto, afirmamos que Moreno e Jung se encontram num mesmo diapasão: ambos percebem no riso a afirmação de um princípio criador.
Quando um sujeito está em crise, quando o poder ordenador e racional do ego se descontrola, a tensão é demasiada e o ser se sente fragilizado - é preciso que se imponha outra força, em alternância. E o que surge como força capaz de propor outros sentidos à trágica situação, é o expediente da comédia e da magia que existem dentro de cada um.
O palhaço em particular, traz a visão carnavalesca, dionisíaca, ousada e grotesca do mundo, anteriormente citada. E o seu valor de renascimento, regenerador e de renovação positiva, “pois ao inferiorizar, rebaixar, aproxima da terra, favorece a comunhão com a parte inferior do corpo, conduz à comunhão com uma força regeneradora e criadora” (Bakhtin, apud Sampaio, 1992). Segundo Bakhtin, o riso renascentista está ligado ao novo, ao futuro, ao nascimento, a abrir caminhos. A figura do palhaço nos leva a enxergar o mundo de modo diferente, mais móvel, intenso e imaginativo.
fonte: Psicodrama do Palhaço
19.5.10
O riso como via de acesso ao criativo transformador (texto sagrado do Delarismo) - parte 1
(Zero Mostel, in Humor Judaico)
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O palhaço foi considerado por C. G. Jung como um representante do trickster, uma figura arquetípica do herói trapaceiro, ambíguo e contraditório, que zomba e transgride normas. O palhaço teria ligações estreitas com o trickster e seria, acima de tudo, uma exteriorização de algo íntimo, universal, primitivo e puro do indivíduo, que se encontra no riso e no exagero. Figura que pode ser amada, admirada ou temida por todos, que assume a dor, a ternura e o ridículo, integrando estes opostos.
Fazendo uma breve retrospectiva histórica do “palhaço”, encontramos já na Idade Média as figuras do bobo da corte ou bufão sábio. A trupe dos saltimbancos surgiu nas festividades da Idade Média e Renascimento. Nesta época, a concepção do cômico opunha-se à cultura oficial, ao tom sério, feudal e religioso da época. Encontramos esta figura cômica também como o “coringa” dos baralhos e como o “louco”, na carta 22 do Tarô. Somente se tornou realmente a figura do “palhaço” na Renascença italiana com a Commedia dell’ arte ( com a dupla “Branco e Augusto”). Passou a frequentar os palcos das festas populares, representando uma “concepção carnavalesca do mundo, uma segunda vida do povo”, assim como o lado jocoso, grotesco e alegre, recusando o poder instituído e afirmando a vida (Bakhtin, apud Sampaio, 1992, p.40). Surge, assim, uma visão do homem e das relações humanas alternante, necessária e revigoradora. Mas, este poder regenerador positivo do palhaço vai decrescendo após o século 17, mantendo-se atenuado em algumas formas do cômico sobreviventes, ligadas ao folclore, ao circo e à feira.
O trickster é considerado por Jung uma imagem arquetípica do inconsciente coletivo, que se insurge para brincar com a lei. É uma imagem eterna, arquetípica. Um herói mítico que é solitário, mas que se efetiva na relação com o outro, embora se volte sempre para si. O trickster é a imagem arquetípica do brincalhão com impulsos infantis, de natureza ambígua (animal e humana, sublime e grotesca). É o infantil no adulto, o infrator de normas.
(...)
Investigando o espírito cômico, observamos que ele é dialético, costuma dizer “não” a um “sim” aceito, ou dizer “sim” a um “não“ aceito e conservado culturalmente. Tem a capacidade de criar a súbita inversão, na qual a familiaridade do mundo comum é posta em questão, para que possamos ver a surpresa e experimentar o espanto que o familiar tende a esconder. A piada, por exemplo, depende muito de uma espontânea e súbita inversão do comum, da conserva cultural, da ordem das coisas geralmente aceitas. Por isto, há um certo atrativo inevitável na brincadeira.
Segundo Richard Underwood (apud Campbel, 2001, p. 166), “é cômico ver a súbita inversão da certeza ou familiaridade em incerteza ou surpresa”. Ou até pode ser trágico, indicando uma íntima ligação dialética entre tragédia e comédia. Como diz um velho cancioneiro popular, “o que dá pra rir dá pra chorar, questão só de peso e medida”.
J. L. Moreno (1889-1974), criador do Psicodrama, tinha plena consciência da força da brincadeira, da alegria e do jogo no trabalho terapêutico. Afirmou que devolveu a alegria à Psiquiatria e buscou no jogo, dramático ou não, o clima lúdico e o riso como condições para promover um estado espontâneo-criador, que ele considerava condição fundamental à saúde mental. Diremos que Moreno desenvolveu um método que visava também despertar o espírito cômico, com seu caráter transformador e transgressor, para que o sujeito com ele pudesse rir do seu drama, ver além da sua tragédia, além do seu modus operandi submerso e submetido às conservas culturais, a atitudes e padrões estereotipados.
Moreno deu, assim, credibilidade e valor à brincadeira como via de acesso ao poder criativo, e em especial no seu poder de colocar em questão o familiar, o conservado, desmontando “certezas”, princípios ou objetivos fixos, cristalizados e não questionados. Vai buscar na atitude lúdica a sua força criativa, para desmontar, desorganizar ou destruir certezas absolutas, pesquisando suas origens, numa perspectiva também genealógica.
(...)
Destacamos também a perspectiva dionisíaca presente do Psicodrama e na figura do palhaço. Dioniso, deus mitológico grego, é um deus do povo, da natureza, do vinho, da liberação pelo êxtase, das emoções, da promoção da vida, da não repressão, da expressão corporal, da dança, do teatro, do sexo e da alegria. Em seu lado sombrio, é o deus da tragédia e da loucura. Mas, é este deus que promove uma via de acesso ao mundo interior, a união das dualidades, do princípio masculino com o feminino, da luz e da sombra, do divino e humano, do alegre e triste, do bom e mau.
Na mitologia e na tragédia grega, é Dioniso quem aponta para a condição humana, que nos vem ensinar o mesmo que os poetas sempre transmitiram, que a vida é um jogo de pares de opostos, são parte de uma unidade permanente. Segundo Albor Reñones (2002, p. 148), “por trás de cada herói e cada sofrimento, ali estaria o deus Dioniso, apontando seu bastão para a nossa cara e dizendo: dance”. Para combater os excessos e a falácia da seriedade, aponta para a dança, para a permissão da alegria e da embriaguês, pois o mundo dá voltas e nada permanece, devendo a cada um de nós entendê-lo como passagem. Este autor (Ibidem, p. 156) nos aponta: “ante a insolubilidade da dor, temos a possibilidade de uma ação solidária, quando não amorosa”. Diríamos que nos resta a poesia, que está presente na alegria.
Segundo López-Pedraza (2002, p.44-45), “Dioniso permite uma perspectiva arquetípica para se relacionar e para diferenciar emoções, como uma via de acesso ao mundo interior”. Segundo Alvarenga (2000, p.143) Dioniso “prega a interação eu-outro de forma simétrica, restituindo a dinâmica do coração”. Dioniso é entendido com representante do arquétipo canalizador da agressividade, da força ou da corporalidade, transformando-a em manifestações criativas. Ao contrário de Apolo (deus do sol, da consciência, da ordem e do pensamento, defensor do patriarcado), Dioniso defende o feminino, é o deus lunar, do inconsciente, da intuição e do sentimento. Representa a dinâmica da alteridade, das relações simétricas, pós-patriarcal (Sousa, apud Alvarenga, 2007).
Parte 2
fonte: Psicodrama do Palhaço
15.5.10
O velho tarado da Mercedes 78
Seu Moreira comprou uma Mercedes 78. Adaptou a buzina com o tema do Star Wars para ver se fazia sucesso entre as colegiais. Ele tinha uma fixação magnética no que chamava de "garotinhas com cheiro de chiclete Trident". Por isso parava o carro de vez em quando na saída do colégio Pedro II.
- Ei, doçura, vem cá. Te dou um picolé de carne.
As garotas gritavam e se escondiam atrás das amendoeiras, com medo. Ele não ligava. Despia a camisa, a calça e ficava de cueca e meia preta, tomando sol em cima do capô do carro. E era nisso que se resumia o seu expediente de velho tarado. Até a vez em que uma mulher finalmente entrou no carro do Seu Moreira. Era a Tia Lucinda, que se orgulhava de ainda menstruar aos 68 anos de idade ("Aqui minha calcinha, ó. Cheia de sangue"). Ela perguntou:
- Seu Moreira, você tem algo contra próteses?
- Próteses?
- É, membros mecânicos.
- Tenho sim.
- Problema seu. Vamos pra Goiás. Quero começar vida nova ao seu lado.
Nisso, uma colegial chega e pergunta:
- E aí, Seu Moreira, o picolé ainda está de pé?
Tia Lucinda se adiantou:
- Psiu, o picolé já tem dona. Sai daqui, sua franguinha!
A menina fugiu com medo e se escondeu atrás de uma amendoeira. Seu Moreira abaixou a cabeça e chorou durante duas horas. Depois ligou a Mercedes e foi pra Goiás. Combinou de rachar a gasolina com a Tia Lucinda.
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Seu Moreira e Tia Lucinda, pioneiros Pipenses, apóiam Madame Lili
20.4.10
Documentário “Anarco-experimentalismo”
Este documentário visa esclarecer o anarco-experimentalismo passando por várias etapas:
* Apartamento F324: muitos absurdistas se conheceram nessa célebre localidade. A princípio uma moradia, o F324 transformou-se através dos tempos. Foi um escritório. Foi uma TAZ – Zona Autônoma Temporária. Foi uma incubadora de empresa. E Foi um Squat. Localizado no Edifício Copan, no último andar, e sendo um apartamento de canto, ele tinha uma vista incrível e oferecia um ambiente seguro para as primeiras maquinações anarco-experimentalistas. Infelizmente, esse grupo de pensadores cresceu além do que o apartamento poderia suportar, o que trouxe a primeira grande lição a eles: “O absurdismo sempre gera atritos com os vizinhos.”
* Juventude Absurdista: uma identidade coletiva que também é um coletivo de identidades, a J.A. se formou emergencialmente através de encontros informais e formatou-se como um grupo fluído e dinâmico de filósofos, sociólogos e mendigos da sociedade em geral. Muitos clamam que eles se levam mais a sério do que deveriam, mas a verdade é que eles tem uma missão, e ela é instilar o caos. Portanto, enquanto homens e mulheres munidos de uma missão, não só eles se levam a sério demais, mas também apresentam comportamentos erráticos que os afastam da cultura popular tradicional. A verdade sobre eles pode ser mais claramente explícita assim: “Os absurdistas vivem a margem da realidade, num limbo confuso onde constantemente nada faz sentido. E adoram isso.”
* Festivais de apartamento: Da época em que os absurdistas perderam controle sobre o F324 por causa da intensa pressão da comunidade que se acercava (vizinhos), ficaram sem rumo. Como resultado, criaram a práxis alternativa, os Festivais de Apartamento. Não se engane pelo nome. Os festivais não envolvem arte, apenas performances das personas absurdistas. São festas que acontecem nas ruas, (apartamentos) onde se reunem todos os tipos de absurdistas, conhecidos e “recrutas”, fazendo com que esse evento seja essencial para a disseminação do caos. Geralmente a J.A tenta manter a ordem nesses eventos pelo simples fato de que sempre alguém aparece e diz: “Ordem não, aqui é o caos”. Sabemos que é alguém saindo do armário. Seu caráter realista os afasta da ficção e portanto os difere do cotidiano da J.A. Foi através dos debates informais regados a drogas, que os Absurdistas começaram a estruturar sua filosofia abstrata num programa político anti-partidário mais aplicável.
* Pacotes de leis: A base do programa reformista, retrovirótico, prático e anti-partidário que o absurdismo propôe como caminho para o Anarco-Experimentalismo. Pode ser mais simplesmente entendido como uma luta contra a perpetuação histórica da super-estrutura social, rompensdo com a ingenuidade típica do anarquismo que deseja erradicá-la. Basicamente, trabalha com a idéia de um contrato social customizado, que o indivíduo constrói através de um programa de pontos. Benefícios sociais custam pontos. Desvantagens dão pontos. Os cidadãos compensam benefícios com desvantagens, de forma a construir seu próprio pacote individual. Os pacotes abdicam do típico protecionismo da esquerda e entregam a responsabilidade na mão do indivíduo, mas buscam a igualidade de direitos entre todos, negando a visão competitiva da direita. A idéia é tangibilizar o ideal anarco-experimentalista do “Estado Customizado”.
JUVENTUDE ABSURDISTA? WTF?
A JUVENTUDE ABSURDISTA é um coletivo que relata fatos que ocorrem especialmente nas ruas e às vezes na rede.
A JUVENTUDE ABSURDISTA é um blog feito por e para anarquistas que acreditam nas leis de trânsito.
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O cabeleireiro das estrelas
Meu cabelo é duro, estilo black-power. E se eu passasse algum tempo sem cortá-lo, sempre recebia o mesmo telefonema.
- O senhor Pedro, por gentileza.
- É ele.
- Bem, aqui quem fala é o representante dos direitos autorais da banda Jackson Five para a América Latina. Se você não mudar o seu penteado nas próximas vinte e quatro horas, entraremos com um processo por uso indevido de imagem contra o senhor. Passar bem.
Definitivamente era hora de cortar o cabelo e, por que não, adotar um visual moderno. Entrei no Chez Lutcho's, o salão da moda, e fui atendido pelo próprio cabeleireiro.
- Cabeleireiro, não! Sou hair designer.
- Ótimo.
Pedi pro Lutcho raspar o meu cabelo à máquina. Ele abriu a gaveta e me mostrou o aparelho.
- É isso que você quer?
- Sim.
Lutcho atirou a máquina contra o espelho e se enrubesceu de raiva.
- Sou Lutcho's Coiffeur, cabeleireiro das estrelas! Não me vendo por tão pouco. Eu te pego, eu te mastigo, te cuspo, eu te transformo. Deixa eu te mostrar uma coisa.
Lutcho remexeu num armário e me trouxe uma foto. Era ele e um sujeito loiro.
- Essa é uma foto minha com o Richard Gere. Cortava o cabelo dele em troca de aparições furtivas nos grandes sucessos de Hollywood.
- Porra, mas esse sujeito aqui não tem nada a ver com ele.
- A foto é antiga. Posso te contar um segredo?
- Sim.
- Eu inventei o corte asa-delta.
- É aquele da voltinha atrás?
- Isso.
- Que merda, Lutcho.
Lutcho ficou ainda mais transtornado e explodiu em prantos. Saiu correndo na direção de uma porta e se trancafiou lá dentro. Um velho barbudo de cadeira de rodas elétrica desceu uma rampinha do salão e parou ao meu lado.
- Lutcho tenta te agradar, te fazer feliz, e o que você dá em troca? Desprezo!
- Olha, não foi por querer.
- Peça desculpas para ele.
Andei até a porta, de onde se podia ouvir os soluços do cabeleireiro.
- Lutcho, desculpas aí.
- Diga!
- Dizer o quê?
- Diga que você é um animal, insensível, ignorante.
- Nem fudendo.
- Tá bom, me faça elogios então. Elogios em francês, elogios mil.
- Olha, eu só vim pedir desculpas. Mas também você fica contando essas mentiras. E isso é...
- Excuse me.
Olhei pro lado e vi um cara alto de cabelo grisalho. Puta merda, era o Richard Gere!
- Lutcho, darling, come on. Let's go to San Francisco.
Lutcho abre a porta e salta para os braços do galã de Hollywood, que o acomoda no banco traseiro de um Jaguar estacionado em frente ao salão. E eu fico com aquela cara de "mas que porra é essa?". Nisso o sujeito da cadeira de rodas sobe à toda velocidade para o topo da rampa e de lá proclama:
- Corações aflitos, meu jovem! O mundo está cheio deles.
8.4.10
Escrevo uma carta em minha própria mão cujo foi decepada em trabalho, mão de obra barata, escrava, para diversão deles minha conduta nunca foi boa e eles não gostam de crianças desobedientes. Vândalos, Degenerados, Delinqüentes, Ladrões, Baderneiros, Desobedientes, Sarcásticos, Marginais & Homens-Livres, foi como nos taxaram, colocaram uma etiqueta em nossa língua, um numero em nossa testa. Éramos todos escravos do mesmo monte de excremento, e eles faziam questão de nos dizer, questão de fazer-nos saber que íamos morrer.
Seus corpos são deformados cheios de enxertos, alguns não possuem troncos nem braços, vivem cantarolando pelos corredores adjacentes aos meus ouvidos, nos mantêm aqui e controlam os reatores cujo agrupamento é apelidado entre seus detentos de "casa", para mim é mais um campo de concentração. "Faça silêncio" é o que diziam, apenas davam a desculpa que era para nosso bem e estávamos todos doentes, nos separaram de nossos entes desde então sem nenhuma explicação tudo passou rápido, tão rápido que ninguém notou os dias, era difícil distinguir dois dias de duas semanas, ninguém veio nos buscar, talvez também tenham sido pegos... Éramos tão felizes.
Adeptos da fé e cheios de preconceitos alegavam cheios de contradição que éramos todos pecadores hereges e nos ensinavam que amor é uma blasfêmia, é errado, cheio de regras, deve ser contido e a principio foi tão difícil, os que escapavam nas primeiras semanas diziam que seriamos transferidos para um mundo recente e tão remoto que sua localização é desconhecida, acredito que na verdade ocultam informações.
Homens com barba mal feita, rostos mal lavados. Tiranos & Usurpadores, eles falam que precisam nos controlar, que somos fora-da-lei, que não podemos mais viver felizes, fazem questão de tomar nossas terras, questão em nos deixar cientes de que irão poluir nossos rios e nossas florestas. Eles dizem que ninguém muda, e isso me dá força de vontade, se antes era um homem livre, agora também serei. É por isso que nego trabalhar para esses sujeitos mal-cheirosos, e é em nome da Liberdade que provavelmente estarei fadado à morte nessa fatídica noite. Talvez eles me torturem antes, é uma diversão para eles, não entendo o fetiche nisso, mas tortura alheia parece ser o assunto quente entre eles.
Miseráveis...
Todo dia ouço esse mesmo gemido mais parece uma roda enferrujada, periodicamente trazem os corpos puxados sobre uma espécie de carrinho aparentemente selado, não se vê soldas, estocam os restos naquelas estantes prateadas da 3° casa de arquivos em potes azuis com um tipo de asterisco com uma etiqueta cheia de numerais e caracteres ilegíveis aos olhos acorrentados atrás dessas barras.
Não posso deixar de observar, os homens famintos, nos dão ossos, e comem suculentos pratos, mais doces do que de anjo, eles dizem. Posso observar tamanhos disformes, as vezes deixam grandes ossos do tamanho de um úmero, ou de um rádio. As vezes uma tíbia, ou um fêmur. Não poderia imaginar que bicho poderia dar ossos desse tipo. De certo tomo consciência do fato de que essa carne não é normal. Não posso deixar de me perguntar, de que continente será que provem essas especiarias?
Eles mentiram pra vocês, ludibriaram e manipularam com suas roupas caras e fala mansa! Vocês já são livres, tudo é permitido! Um brinde à Éris, A mais bela, a Deusa da Discórdia! Sejam os Sagrados Anjos de si mesmo, como diriam os Thelemitas! Sejam seus próprios Demônios, como diriam os Ocultistas! O Único Pecado é a restrição. Viva sua vida, eu bem que gostaria de viver a minha, mas agora é tarde demais...
Não consigo mais esconder o meu repudio por essas criaturas. Finalmente me desvencilhei dos grilhões da Escravidão. Estou transcendendo a realidade. Estou rompendo meus limites e finalmente abraçando a imortalidade. Já chega desta hipocrisia, agora eu vou lhe mostrar-lhes algo diferente. Da tua sombra que se segue ao amanhecer. E por tua sombra que à ti te ergue ao anoitecer. Eu vou mostrar-lhes o medo num punhado de pó!
VIAGEM SIDERAL
Minha execução foi decretada e imagino que terei o mesmo destino de meus irmãos, sinto falta de tudo que deixarei aqui e medo desse futuro incerto. Já sinto falta do cheiro doce do campo, eles podem me acorrentar à fezes, podem ter traçado meus últimos meses linha por linha, mas nesses últimos dez minutos eu sou livre. TUDO EM NOME DA LIBERDADE, eu repito, as pessoas se esquecem que o nosso verdadeiro motivo de transcender é viver livremente. Essa espera é que está me matando...
Agora eu me despeço de todos vocês, muitos daqui não verei outra vez. No final das contas o que está me atormentando mesmo é toda essa espera, eles me aprisionam e me fazem contar carneiros. Gasto o tempo que não tenho, com coisas que não gosto. Acho que no final da sua vida, você começa a pensar no começo, convenhamos, Aleister Crowley realmente sabia do que estava falando quando disse: “Amor é a Lei, Amor sob Vontade”. As tradições e seitas orientais tem o costume de dizer que no segundo que antecede sua morte você vê sua vida inteira num piscar de olhos, eu não acho que seja bem assim, acho que você apenas veja as coisas que realmente lhe importam nessa vida...
Será que você pode adivinhar o que eu vi?
5.4.10
Olhos de Vidro e Marmore
A noite estava insólita com um ar mais frio e rarefeito do que o normal quando Timóteo Pinto adentrou para a escuridão do beco local. A noite estava clara sob a lua cheia de plena sexta-feira 12, e apesar de Timóteo não estar bêbado, certa “consciência alterada” tomava conta de seu ser nesta fatídica noite.
Sua atenção foi chamada com o som efêmero e “inócuo” de uma gota d’água em uma pequena poça de água semi-dissolvida com vestígios fecais de alguma ave. O som parecia de tilintares de taças acompanhada com diminutos coaxos e certos “cri-cri-cri-cri”
Timóteo entrou e pensou que seus olhos o enganaram, pois o nosso senhor assustou-se ao ver um sofá velho sob a tremenda influencia do tempo e colossais ondas de poeira.
Por algum motivo incógnito desmerecidamente, Timóteo ficou hipnotizado ao olhar os olhos do velho, eram olhos opacos, possuíam tons de nevoas, e ao mesmo tempo uma escuridão apocalíptica, como se a qualquer segundo aquele olhar sombrio e caloroso (os dois ao mesmo tempo) pudesse dar inicio a uma reação de cadeia que prenderia tudo sob a hipnose daqueles olhos.
Timóteo se aproximou e ficou à dois metros olhando diretamente os olhos do velho, não sabia o porque, mas os olhos daquele velho pareciam a coisa mais importante da existência. Parecia a única essência realmente essencial da vida. Ele reparou que lentamente mergulhava em seus olhos e então percebeu: Pequenas cutículas dentro de seus olhos começaram à exalar um brilho carnavalesco, e rodava, em espirais uma majestosa dança sobre o ritmo de ‘Magnificat’ ou de Eine Kleine Nachtmusik.
Seus olhos por fim deram origem a uma galáxia, perfeita em todos os seus detalhes. Ele não sabia mais dizer à quanto tempo estava encarando aqueles pares de olhos imateriais, o tempo parecia estranho agora. TIMÓTEO sabia com certeza que fazia mais de dois dias e com incerteza sabia que fazia menos de uma semana.
Uma vontade LOUCA de urinar atacou-o quando ele sabia que, como em um sonho surreal, que se parasse por dois segundos de olhar aqueles olhos, e retorna-se sua visão, não seria mais a mesma coisa. Então sem pestanejar, TIMÓTEO urinou sua substancia ureica-amoniaca ali nas calças mesmo. E pela primeira vez na vida Timóteo perguntou alguma pergunta decente e inteligente:
“-Senhor, quem diabos é você?!”
A voz extremamente fina do velho, como se tivesse alguma doença nas cordas vocais, parecendo uma imitação do clássico personagem Kiko (chaves) lhe respondeu:
“-Me desculpe, mas eu não sou daqui, sou de outro planeta, gosto de cogumelos…e eu sou maluco branquelo, de cabelo amarelo, minha vida é a estrada e eu não ligo para nada, só quero cantar…flutuar no Universo ver o mundo de perto ver a Terra girar…
“Me desculpe estranho, eu voltei mais puro do céu. Saiba que a lua ao lado é sempre igual e que Júpiter sempre muda, que eu sou um louco caótico e doente, sou Maluco Beleza, e que, a caixa-mágica manipula sua mente, os pergaminhos do Times são malignos. Agora eu preciso sair daqui, vou pra outro planeta, algum distante que possa sentar e relaxar.”
Timóteo não sabia como, mas aquela noite durou mais de dez anos e toda a sua liberdade, todo seu livre-arbitrio, todo seu intelecto e toda sua sanidade mental (não que ele pudesse dizer com certeza que possuia uma, obviamente)
4.4.10
2.4.10
"Se tem uma coisa que 100% das pessoas concordam é que não existe unanimidade." - Henrique Szklo
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1.4.10
Black Parrachian

Um terror ronda os quintais das senhoras incautas e anorexigenas espalhadas paralelamente pelo chão.
Findam-se os dias das bonitinhas histórias gansianas e devém o tempo saturnino do trovão: Black Parrachian, nice day.
Parrachianos gritam dos confins de Santa Teresa ou de Belvedère para se esconderem de tamanho horror.
Parrachianos obscuros tomam o confronto com o que parecia ser mais bonito: a vida. A exaltação do ganso pelos parrachianos é invertida e os adeptos do Bela-parrachianismo negro acabam por forçar um culto ao Pato.
Lembremos das leis básicas do Parrachianismo:
- Tudo é ganso
- Ganso é tudo
- O que não é tudo é nada.
- Quem nada é pato.
Ao louvarem o nada - o Pato - os black parrachians descobriram, em seu surto de terror, novos paradigmas como leis cósmicas. Eis então que:
- Se puder dar merda, dará.
- Merdas acontecem.
- Alguem tem que se fuder.
- Sempre pode ser pior...
E foi assim que o céu fez-se noite no mundo dos vivos.
20.3.10
LinKaonia nº 1
as mais recentes caozices captadas por wodouvhaox linKao apslackord
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Pseudocabala Discordiana Albertista do Rev. Albert - O Mito, A Lenda, O Grande Fnord agora no Delírio Coletivo
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Principia Discordia - curta-metragem baseado no livro
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Sociedade da Cacofonia no Delírio Coletivo - no ar a versão 2.3
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Culture Jam - Documentário sobre a cultura cacofônica gelatinante
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e pra terminar
uma autopromoção descarada:
minimalóki - slacken fnordstik apscalic
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...
tens algum linkaotico? mande para a redação: minimalistaarrobagmail.com ou andre-farrobarocketmail.com
oy!
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22.2.10
19.2.10
Koan da Xícara de Chá
Madame Lili: PIPA 2010

Vozes impopulares tem acreditado ainda que é a juventude o corpo revolucionário. Os nossos partidários do PIPA, porém, vêem que outra estratégia se desvela em tempos de puritanismo.
São os idosos prorgias-, um agrupamento dos mais simpáticos e carinhosos vovôs e vovós que já cruzaram estas terras.
O mais novo nome nesta cruzada é "Vô Bill" ou "Kid Cadilac" como era conhecido nos tempos da brilhantina..
O vovô com cara de esperto foi um dos primeiros a se tornar adepto de Madame Lili quando em 1932 participou da primeira suruba com nossa heroina.
Vô Bill está pronto para defender na câmara o projeto pró pornografia idosa em horário comercial, como estratégica político-partidária.
Continuemos juntos.
2010 é ano do P.I.P.A!
2010 é Madame Lili fazendo sua cabeça!
18.2.10
17.2.10
William S. Burroughs - The Man Who Taught His Asshole To Talk
Did I ever tell you about the man who taught his asshole to talk? His whole abdomen would move up and down, you dig, farting out the words. It was unlike anything I ever heard.
This ass talk had sort of a gut frequency. It hit you right down there like you gotta go. You know when the old colon gives you the elbow and it feels sorta cold inside, and you know all you have to do is turn loose?
Well this talking hit you right down there, a bubbly, thick stagnant sound, a sound you could smell.
This man worked for a carnival, you dig, and to start with it was like a novelty ventriloquist act. Real funny, too, at first. He had a number he called The Better ‘Ole that was a scream, I tell you. I forget most of it but it was clever. Like:
‘Oh I say, are you still down there, old thing?’
‘Nah I had to go relieve myself.’
After a while the ass start talking on its own. He would go in without anything prepared and his ass would ad-lib and toss the gags back at him every time.
Then it developed sort of teeth-like little raspy in-curving hooks and started eating. He thought this was cute at first and built an act around it, but the asshole would eat its way through his pants and start talking on the street, shouting out it wanted equal rights.
It would get drunk, too, and have crying jags. Nobody loved it and it wanted to be kissed same as any other mouth.
Finally it talked all the time day and night, you could hear him for blocks screaming at it to shut up, and beating it with his fist, and sticking candles up it, but nothing did any good and the asshole said to him:
‘It’s you who will shut up in the end not me. Because we don’t need you around here any more. I can talk and eat and shit.’
After that he began waking up in the morning with a transparent jelly like a tadpole’s tail all over his mouth. This jelly was what the scientists call UDT — un-differentiated tissue, which can grow into any kind of flesh on the human body.
He would tear it off his mouth and the pieces would stick to his hands like burning gasoline jelly and grow there, grow anywhere on him a glob of it fell.
So finally his mouth sealed over, and the whole head would have amputated spontaneous — (did you know there is a condition occurs in parts of Africa and only among Negroes where the little toe amputates spontaneously?) — except for the eyes, you dig?
That’s one thing the asshole couldn’t do was see. It needed the eyes. But nerve connections were blocked and infiltrated and atrophied so the brain couldn’t give orders any more. It was trapped in the skull, sealed off.
For a while you could see the silent, helpless suffering of the brain behind the eyes, then finally the brain must have died, because the eyes went out, and there was no more feeling in them than a crab’s eyes on the end of a stalk.’
15.2.10
O job do customer relationship management
Chegava o final do mês e, como todos os outros funcionários da empresa, eu reclamava do salário. A diferença era que nunca trabalhei lá. Há uns cinco anos eu tinha sentido vontade de ir ao banheiro, pedi para usar o lavabo deles e acabei ficando. Encontrei uma cadeira vazia, uma pilha de papéis e uma velha máquina de escrever elétrica. Era o que eu precisava para começar a digitar meus relatórios, que ninguém lia. Ocasionalmente eu alternava essa função com uma outra, mais divertida: interromper reuniões de negócio com algumas frases de efeito.
- Me desculpe, senhores, mas o job do customer relationship management já está pronto?
- O quê?!
- O job do customer relationship management. Ele deve estar pronto on demand ou isso influenciará o downsizing do nosso share of mind no data-warehouse.
- Nós não estamos sabendo de nada.
- Eu escrevi um relatório sobre isso ontem, depois do staff meeting!! Seus corporate executives de merda. Todos vocês receberam!!
- A gente... A gente não recebeu.
- Não receberam, né? Vocês que sabem. O presidente da empresa vem amanhã aí. Se esse job não estiver pronto, anéis anorretais irão sangrar!!
Em questão de segundos todos os sujeitos começavam a revirar aquela papelada, procurando a porra do relatório. Entornavam latas de lixo, agrediam secretárias, tremiam de nervoso, empapuçavam o colarinho de suor. Um deles chegou inclusive a ter um ataque cardíaco, mas o meu advogado me instruiu a não comentar nada sobre este assunto. Depois desse incidente eu resolvi encontrar um novo hobby. Consistia em ficar plantado na entrada da empresa e espantar todos os nossos clientes com uma fantasia de bate-bola. Alguns deles eram mais corajosos e tentavam entrar assim mesmo. Mas nada que um spray paralisante não resolvesse. Quando fechamos o terceiro semestre com prejuízo por conta disso, eu escrevi um relatório culpando o Luciano do almoxarifado, que vinha tomando café demais. Fiz as contas de quanto o sujeito bebeu nos últimos três meses e sugeri que ele fosse enrolado em um casulo de fita crepe e papel almaço, sendo abandonado à própria sorte em algum canto da empresa. Mas como ninguém lê o que eu escrevo, não aconteceu nada.
De uns meses para cá eu comecei a me sentir meio inútil e decidi cuidar de uma impressora. Só que ela fazia muito barulho. "Cheeeng", "cheeeng", sabe como é? Eu ali parado o dia inteiro, sem ninguém pra conversar, ao lado daquela porra e ela fazendo "cheeeeng", "cheeeeng". Entornei um copo inteiro de café em cima da maldita máquina, que parou de fazer barulho. Algum espertalhão do suporte apareceu e começou a gritar que eu tinha quebrado a única impressora do andar. Mas obviamente o culpado era o Luciano do almoxarifado.
- Se ele tivesse bebido todo o café, nada disso teria acontecido.
Houve uma comoção geral em torno da impressora. Era uma Epson Fucking Advanced 3000, imprimia colorido todos os documentos, nunca deixou ninguém na mão. Uma mulher atirou um clips em mim e eu percebi que precisava fazer alguma coisa para acalmar os ânimos. Foi então que descobri como resolver aquele impasse: eu ia ficar circulando pelo escritório com um bloquinho.
- Ei, cara do bloquinho, tô precisando imprimir esse texto!
Daí eu copiava tudo o que estava escrito no monitor e deixava as folhas de papel em cima da mesa. Até ai tudo bem. Complicado era quando tinha alguma imagem no meio e eu precisava usar lápis de cor. Nunca soube desenhar direito. Passava o programa do Daniel Azulay na TV e eu, já velho, não conseguia fazer nada daquilo. Foda.
Toda essa minha nova função como impressora me absorveu muito. Eu praticamente morava no escritório, virando noites com o bloquinho e cada vez me distanciando mais da minha família. Tinha em casa uma esposa gorda, um poodle neurótico e um filho de olhos puxados que não se parecia muito comigo. Mas sentia falta deles mesmo assim. E como eu estava divido entre meu trabalho e família, achei melhor trazer eles para ficar comigo no escritório. Morar mesmo, entende? E foi assim que nos mudamos de vez. O Lucas, o meu filho com cara de japonês, fez de uma das salas de reunião o seu quarto. Pendurou um modelo Revell no teto e formatou o computador do chefe pra poder jogar Fifa Soccer. Minha gorda esposa pôs um fogão no meio da sala de engenharia. Chamou todas as amigas pra conhecer a casa nova. E por incrível que pareça, o pessoal do escritório parecia não dar a mínima. Estavam concentrados demais no trabalho para perceber o que acontecia à sua volta. O poodle cagando todo o corredor, o garoto roendo a unha do pé na recepção, a mulher passando a feiticeira no carpete; nada disso incomodava os funcionários.
Depois de uns meses o escritório fechou. Não foi culpa de mais um trimestre de prejuízo, da conjuntura econômica, nem tão pouco do Luciano do almoxarifado. Ao voltar de um almoço no domingo, percebemos que minha esposa esquecera a chave no escritório, trancado a gente do lado de fora. Na segunda-feira ninguém conseguiu entrar. E os dias foram se passando, os funcionários se amontoando na entrada, até que chegou a notícia: a empresa havia pedido concordata. Foi ai que decidimos ir ao bar mais próximo e nos reunir pela última vez. Enchemos a cara. A certa altura alguém sugeriu que fizéssemos uma roda de oração. Demos as mãos e, como nenhum de nós sabia rezar e todos ali já estavam bêbados, cantamos uma música triste do Chico Buarque. Não me lembro o nome. O que eu me lembro é do rosto daqueles colegas a quem aprendi a amar nestes últimos anos. Lembro-me de todos os momentos que compartilhamos juntos, das conquistas, das derrotas, do sentimento comum de fraternidade que nos unia em torno desta empresa. Mas com esse pequeno detalhe: eu nunca trabalhei lá.
9.2.10
P.I.P.A. - Comunicado: lançamento de 'patacampanha
Então, na condição de 'patavereador do PIPA, lanço aqui a 'patacampanha para essa campanha: Eleições 'PataExtraOrdinárias Já!
sem mais,
wodouvhaox apslackord
7.2.10
Madame Lili: PIPA 2010
O Glorioso "PIPA" (Partido Interestalar Parrachiano Anarcodiscordiano) acaba de lançar uma candidata de outro planeta, sim, no sentido de excepcional. Trata-se de Madame Lili que disputará o cargo de vereadora em 2010.
Dentro dos projeto de Madame Lili estão a organização de órgãos públicos pela defesa e o estimulo da cultura da órgia entre a população de terceira idade.
O Slogan de Madame Lili é claro: "Orgia é cidadania", além do clássico: "Inclusão na terceira idade: órgia é solução!".
Considerando o histórico político de Madame Lili o PIPA está resoluto na eleição da vereadora e da proteção dos programas do partido.
O presidente do PIPA, Timóteo Pinto, lembrou ontem numa cerimônia que Madame Lili é uma ativista há anos. Nas palavras de Timóteo:
"Mademe Lili é um exemplo para nós. Me lembro bem que ela ficava a colar em postes, telefones públicos, paredes em geral frases convidando as pessoas a órgias. Ela escrevia: órgia grátis: venha fazer parte você também!. Nós, do Pipa, damos extremo valor a este tipo de atitude que só vem a contribuir para uma sociedade democrática".
No dia seguinte ao discurso de Timóteo conservadores e religiosos de plantão atacaram o email do Priste e incentivaram a violência.
Nós acreditamos que é o momento de renovação no PIPA. MADAME LILI PARA VEREADORA!
15.1.10
Esperando pela suruba
Domingo triste. Meu primo Hélio estava no hospital em estado crítico, esperando por um transplante de medula. Após alguns exames descobriram que eu era o único doador compatível. Saí de casa então para comprar jornal, devolver uns vídeos na locadora e fazer o tal do transplante. Mas foi aí que eu vi esse cartaz:
"Chegou a sua vez!
Já imaginou como seria estar cercado por belas mulheres e fazer aquele sexo sujo? Pois pare de sonhar e venha correndo para a nossa suruba. Sorteio de aparelhos eróticos, Cicciolina cover, lesbianismo gratuito.
Rua Jangadeiros, casa 40"
Peguei o primeiro táxi que apareceu na minha frente. Agüenta as pontas aí, primo Hélio! Estamos torcendo por você. E foi aí que, chegando no local, toquei a campainha e um senhor de uns sessenta anos apareceu numa janelinha da porta. Tinha um bigode enorme pendendo abaixo do nariz. Parecia que estava tentando engolir um castor. E a cauda, aquela enorme cauda, escapava pela boca.
- Sim?
- Ahnn... Aqui é Rua Jangadeiros, casa 40?
- Correto.
- Meu senhor, é a respeito de uma suruba.
- Suruba?
- Isso.
- Só um momento.
O homem fechou a janelinha. Era possível ouvir uma dessas músicas instrumentais que costumam tocar em consultórios médicos vindo lá de dentro. Após alguns instantes, ele voltou. Desta vez, junto com uma simpática senhora de cabelos grisalhos, que me convidou a entrar.
- Vamos, meu rapaz. Não se acanhe. Quer um refrigerante?
- Não, obrigado. Vem cá: é aqui que vai acontecer uma suruba?
- Sim, em alguns instantes. Por favor, me acompanhe até a sala.
Entrando na sala eu me deparei com uma cena bizarra. Um homem imenso, gordo, vestindo roupa e máscara de couro, sentado no sofá. No lugar da abertura para a boca havia um zíper. Ele segurava um chicote e parecia ter uns tiques nervosos. Putaquilparil, eu quero minha mãe.
- Este daqui é o Buba. Um ótimo rapaz. É mudo, coitado. Ele veio pelo mesmo motivo que você.
Buba soltou um grunhido. A baba escorria pelo zíper da sua máscara. Sentamos no sofá e ficamos ali vendo TV. Eu, o casal de senhores e Buba. Passava "E o Vento Levou". Queda de Atlanta, aquela porra toda pegando fogo.
- Minha senhora, somos apenas nós nesta suruba?
- Por enquanto sim, meu rapaz.
E o filme continuando. A protagonista rolava pela escada e perdia uma criança. Buba abriu o zíper da sua máscara e falou:
- Vivien Leigh está maravilhosa neste filme.
Todos nós ficamos olhando para ele. A senhora sorriu e bateu com as mãos em seu próprio colo.
- E nós achávamos que você era mudo...
- Não, não. Todo mundo sempre pensou isso. Mas é que até hoje eu nunca tinha encontrado nada de interessante para falar. Então preferia não dizer nada.
A senhora se virou para o seu marido, que lia o jornal em uma poltrona no canto da sala.
- Não é fabuloso, Jaime?
- O quê? Ah, sim, estupendo! Eu sou um constante fascinado pela condição humana.
E logo depois voltou para o nosso amigo mascarado, segurando em suas mãos:
- Buba, venha comigo, sim?
Buba grunhiu e, cambaleando feito um babuíno, desapareceu com a senhora por dentro de um corredor. Jaime continuava impassível, lendo o seu jornal. Alguns longos minutos depois, a simpática senhora apareceu de novo na sala, soltando um grito:
- Férias na Alemanha!!
Tremi no sofá de susto. Ela estava agora fantasiada com uma roupa folclórica alemã e prendia Buba em uma coleira, que por sua vez vestia um traje de tirolês por cima das suas vestimentas de couro. A senhora trazia consigo um álbum de fotografia.
- Vamos ver as fotos da viagem!?
Mais um grito e Buba, desta vez, grunhiu e regurgitou alguns goles de baba. Antes que a senhora abrisse o tal álbum ou a boca, eu já tinha saído da casa. Estava quase na rua quando encontrei essas três mulheres. Três lindas garotas, dessas que jamais dirigiriam a palavra a mim.
- Oi, por favor, é aqui que vai acontecer uma suruba?
Estava calor e pequenas gotas de suor escorriam pelo corpo delas. Eu gaguejei alguma coisa e abri a porta. As mulheres entraram e foram indo para a sala. A simpática senhora, fantasiada de alemã, fechou o álbum e exibiu um sorriso convidativo.
- Sejam bem-vindas ao nosso sexo grupal.
Eu comecei a tirar a minha roupa. Camisa, calça, sapato; foi tudo ficando pelo chão mesmo. Buba desabotoou o seu traje. A simpática senhora se livrou das roupas de alemã, revelando, em poucos instantes, as suas tetas murchas que lembravam duas azeitonas secas. As lindas garotas, tímidas a princípio, logo se animaram e começaram a tirar o sapato. E eu simplesmente não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Transar com essas mulheres seria a realização de um sonho absurdo, a concretização de uma realidade impossível. Tão impossível que, se eu realmente comesse elas, provavelmente romperia alguma lei fundamental da física. Mas aquilo estava acontecendo. As meninas se despindo, tirando as camisas... O clima de erotismo invadia a sala. A única figura que destoava daquela cena era o nosso amigo Jaime, que permanecia sentado na sua poltrona. E logo quando as meninas iam se livrar do soutien, ele se levantou e disse:
- Meus caros, e se dançássemos a polca?
"A polca?". "É, aquela dança tradicional da Polônia". Todos adoraram a idéia. Eu ali, semi-nu, cercado por lindas mulheres e a simpática senhora filha de uma puta indo pôr um disco de polca na vitrola. Ainda com suas tetas murchas expostas, ela começa a estalar os dedos para aquela música estúpida. As garotas, Buba, Jaime e a simpática senhora formaram pares de dança. E eu não tinha ninguém para dançar. Eu não conhecia a polca. Eu não ia comer ninguém. Era hora de ir embora. Precisava ainda fazer um transplante. Olhei para TV e vi que "E o Vento Levou..." estava acabando. Porra, as fitas de vídeo! Precisava devolver as malditas fitas de vídeo. Bem, deixa o transplante para depois então. Porque, como diria Scarlett O´Hara, amanhã é um novo dia, primo Hélio, amanhã é um novo dia...
25.12.09
Todos os Baiacus merecem o céu
O Caio ganhou um Nintendo, o Flavinho um autorama do Piquet. E eu, bem, eu rasguei o meu embrulho, abri a caixa e descobri que ganhara um baiacu morto. Junto vinha um manual de instruções, com apenas uma frase: “Produto não comestível”. Também pudera: o bicho já estava podre, com os olhos brancos. Fedia pra cacete. Não sabia o que fazer com aquilo. Achei melhor levá-lo até o meu pai e perguntar isso para ele.
- Pai, ganhei um baiacu de natal. O que eu faço?
- Bem, ele está morto?
- Sim.
- Então devemos organizar um funeral apropriado para ele. É o que há de decente a ser feito.
Meu pai me deu um tapinha nas costas e explicou o propósito do presente. Segundo ele era algo para me ensinar a lidar com a morte, com a perda. E sabe, até que não era tão ruim. Enquanto o Flavinho encaixava as pistas do seu autorama do Piquet, eu montava o caixão do baiacu com tábuas de compensado.
- Pai, existe um céu para os baiacus?
Chamei todos para comparecerem ao meu pequeno funeral, mas a família inteira estava ocupada demais com a ceia e os presentes. O único que se dispôs a ir foi o jovem papai-noel, que se sentia meio deslocado na festa. Ele olhou todos os preparativos e abaixou a cabeça, com pesar. Estava visivelmente emocionado quando comecei o meu discurso.
- Um sonho interrompido, cortinas que se fecham em meio a um ato. Alguém que tinha a tanto a oferecer e partiu tão cedo...
O papai-noel fajuto - contratado pra festa - resolveu também participar.
- Baiacu honesto, nunca fez mal a ninguém.
- Isso! Sempre que precisávamos de um companheiro, lá estava ele com uma palavra amiga.
- Bem-humorado, piadista... Era um fanfarrão, mas não mexia com a mulher dos outros.
- E mesmo assim, partiu. Por que, por quê?!
Ajoelhei-me no chão, fechei os olhos e fingi que estava chorando. Quando me levantei, vi que o papai-noel tinha retirado o baiacu do caixão e o segurava pelo rabo. Ele passava os olhos pelo peixe com um olhar curioso.
- Ei, garoto, isso daqui não é um baiacu.
- Como assim?
- É um bacalhau. E está gelado, cheio de tempero. Seu pai deve ter tirado ele da geladeira.
Jogamos o peixe no mato e voltamos à festa. Nos confraternizamos com os convidados, comemos, dançamos; tudo isto com um espírito revigorado. Porque além do nascimento do Deus-menino, tínhamos muito a comemorar naquela noite. Afinal, o baiacu não morrera.
- Um brinde ao baiacu, aquele peixe sapeca.
- Sempre nos pregando uma peça. Tim-tim!
22.11.09
Aforismo 001
ao dizer que algo nasce, atribuimos a um devir uma existência objetiva, a recortamos de todo o restante da realidade e negamos a existência de outros devires contraditórios. o mesmo ao dizer que algo morre. a morte e o nascimento não são substantivos, não possuem em si substância, fora de nosso próprio mapa de realidade. somos nós que lhes atribuimos sua substância fantasmagórica, "A Morte", "O Nascimento", memes, grades de janelas. as percepções humanas inventam a dualidade, mas o mundo tampouco é uno. a própria unidade é fruto de nosso quantificar. a realidade não possui quantidade, não sendo substância, não possui adjetivo.
então o leitor pensa "mas eu sou! eu estou lendo este texto, portanto eu existo, o que eu experencio é real". pois sim. você é real, eu sou real, este texto é real. mas não por si próprios, porém apenas em experiência. quando a experiência cessa, cessa a realidade. a memória é uma continuação da experiência. sonhos são reais, eles acontecem.
distinção entre material e ideal não faz sentido neste mapa de realidade. alguns dizem que o material, o concreto, é que define a consciência. mas o que é o concreto, pergunto-lhes eu. seria o concreto a economia, como dizem? como eu gostaria de chutar a cotação do dólar! ou seria o concreto a fome, a dor, as sensasões físicas? mas sensações não são produto da mente, relações abstratas? e pensamentos abstratos não se expressam em mudanças concretas na realidade, não são eles próprios também reações químicas e biológicas? onde, no fim das contas, está a oposição entre abstrato e concreto? uma coisa está tão imbricada na outra que querer separá-los e opô-los gera o sentimento de falta que marca nossa civilização. dividimos o mundo e tentamos viver o dia-a-dia em metade dele e buscamos a outra metade em religiões e prazeres e entretenimento.
mas não se trata simplesmente de negar a dualidade em favor de uma unidade essencial de todas as coisas. sendo aí a própria negação o gérmen de nova dualidade, a afirmação de uma verdade superior. dissolvo a dualidade em favor do nulo. no nada não há negação, nem afirmação, apenas há. o nada não é ausência de algo, nem o contrário. é a totalidade da existência, o saldo de todas as equações. não há verdade, pois esta é mais uma relação de sentido, e a realidade não tem sentido.
via O Zenarquista
23.9.09
Le Fórum Absurd - O Local dos Deslocados
absurdismo, discordianismo, concordianismo, realismo, surrealismo, delirismo, lucidismo, qualquercoisaismo, cultura pop & impop, etc...
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HihiSlackronedianos Aanidi Freaks Mutantes, uni-vos!
Filie-se ao P.I.P.A.! - Partido Interestelar Parrachiano zenAnarco-Discordiano
e Vote Sempre 2,3 para Deusa!
->-=+
27.8.09
Pastor Timóteo esteja convosco: Ele está no meio de nós!
Por Crownedvic!
Olha ali! Vê aquele homem de bom coração que consegue, há 5 anos, com doces palavras, PROVAR que a vida é bela, que Deus existe, e que ser feliz é simples e fácil? E aquele ali, aquele ingênuo voluntário que abriu um blog (hoje cheio de assinantes) só pra dar esperança às pessoas que se sentiam desamparadas e carentes, e que as tem conseguido convencer que suas vidas só são difíceis e complicadas porque elas é que estão fazendo tempestade em copo d'água? E aquele ali, aquele famoso autor de livros de auto-ajuda que estão no topo da lista dos mais vendidos? E aquele outro, um exímio sedutor na área da lei da atração? - Cuidado!!! Por baixo de um daqueles benévolos sorrisos que transmitem tanta segurança, pode haver, ardilosamente oculto, o sorriso de um... Pastor Timóteo!!!
PASTOR TIMÓTEO VIVE!
Ele nasceu para pregar a harmonia, a ordem, a estabilidade emocional e a concórdia neste mundo tão caótico e perigoso! Ele está no meio de nós, cumprindo sua nobre missão! Ele está em todos os lugares! Ele é todos nós, assim como está em lugar nenhum e não é eu e nem você.
Há muito se vem falando que, no fim dos tempos, o lobo-mau sairá justamente de dentro da vovozinha menos suspeita. Por baixo de quais peles se esconde Pastor Timóteo? - Quem é, e por onde andará... Timóteo Pinto?
Será Zíbia Gasparetto um Pastor Timóteo que arrebanhou milhares de fiéis e, quando chegar o momento derradeiro, lançará impiedosamente uma maçã sobre todos eles? Ou será o padre da esquina um Pastor Timóteo que, após conquistar toda a comunidade na palma da mão, apenas esperará pelo momento oportuno pra dar um peteleco nesse seu rebanho e mandar todos pro fundo do abismo?
Pastor Timóteo está à solta! Pastor Timóteo, nosso sorrateiro Loki; Pastor Timóteo, o maestro! Em qual vovozinha o povo poderá confiar, a partir de então? - Já não se pode mais seguir demagogos com segurança, Pastor Timóteo pode ser um deles... E agora?????
Pastor Timóteo já está, neste exato momento, realizando brilhantes cultos no Reino dos Céus, à direita, e à esquerda, de Deus-Pai-Todo-Poderoso. Pastor Timóteo já tem seu trajeto traçado, e algum dia pegará todos os anjos de surpresa - quando, finalmente, cairá de volta, juntamente com todos eles, nas profundezas do inferno!!!...
Pastor Timóteo esteja convosco; Ele está no meio de nós!
26.8.09
14.8.09
6.8.09
The Aftermath Games! Pós-Математика Games!
Atenção, discordianos de todo o Brasil e do mundo!
Estávamos nós, pessoas (e não repolhos) diversas numa conversa pelo IRC e rolou uma ideia interessante: vamos fazer a primeira olimpíada discordiana (e por que não freak em geral? Parrachianos, shiminianos e whatever sintam-se à vontade) de mindfucks! Oh yeah!!!
A idéia (por enquanto) é a seguinte: várias categorias (como a clássica AFUNDE!!) e a competição dividida por cidades - ou seja, podemos jogar em grupos, por cidades. Como definimos o vencedor? Da seguinte maneira:
Supomos que temos o grupo da cidade A, o da cidade B e o da cidade C. O da cidade C fez um mindfuck legal. O da cidade B fez um mindfuck massa. mas o da cidade A fez um mindfuck MUITO foda, desses que você olha e pensa "porra, demais..." - e é esse reconhecimento que vai fazer de A o vencedor. Ou seja: ganha aquele que merecidamente impressionar os outros a ponto dos outros reconhecerem-no como vencedor =)
A data pensada pra ser o início de tudo - com algum tipo de cerimônia de abertura - é dia 20 de Outubro, que é o dia primeiro de consequências - os jogos seriam justamente os jogos pra comemorar essa estação, que é o fim da tediosa estação de burocracia.
Tudo isso é um resumo do brainstorm da conversa; nada aqui está decidido e tudo está aberto a pitacos!! Há inclusive uma ideia de fazer a cerimônia de abertura na Oktoberfest, se a coisa virar e o pessoal for pra lá.
Façam comentários com ideias, twittem com a hashtag #aftermath (mesmo que o nome depois não seja esse), espalhem, etc etc etc
Links Olímpicos Pós-Matemáticos:
Blog dos Jogos
Artigo na Discordiapédia: aqui
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25.7.09
22.6.09
13.5.09
O funk, minha gente, é o futuro do movimento social
o bonde do tigrão vai anarquizar o bananão
Eu acho funk carioca o máximo.
Um bando de analfabetos funcionais miseráveis e sem o menor refinamento se junta, aprende a operar aparelhos até certo ponto sofisticados, apropria-se de peças da indústria cultural e avacalha com tudo, transformando-as em um batidão irresistível pontuado por letras que falam de suas próprias vidas. Cultura popular é isso aí.
Mais do que isso, estes jovens criam um mercado próprio para sua música, inventam festas que reforçam os laços comunitários — muito embora isso em geral envolva tomar posição contra outras comunidades — e criam um sistema de distribuição de renda e ascensão social próprio das favelas.
De acordo com reportagem da revista Carta Capital de 20 de abril, por Pedro Alexandre Sanches, não são raros os funkeiros que faturam mais de R$ 10 mil por mês. Além disso, sua música tem um sistema de distribuição independente de fato, passando longe das grandes gravadoras e até mesmo dos impostos cobrados pelo governo.
Os intelectuais de plantão, quando poderiam enxergar no funk a manifestação de uma imensa criatividade que, bem canalizada, poderia gerar música popular de excelente qualidade, preferem desqualificar o estilo com base em padrões eruditos. É óbvio que o funk é ruim. Difícil é esperar de excluídos semi-analfabetos que façam música que siga alto padrão, com a qual nunca tiveram contato.
Critica-se também a "mensagem" do funk. Mas ora, não se passou décadas exigindo uma cultura verdadeiramente popular no Brasil? Pois aí está ela. As letras falam da vida daquelas pessoas: assassinato e tráfico no horário comercial, sexo e drogas à noite para relaxar. Talvez algumas personalidades mais delicadas sintam nojo ao ver a falta de perspectivas daquela juventude exposta assim, nuazinha.
Assim como se chocam ao escutar meninas pedindo para serem "atoladas no cuzinho" ou coisa que o valha. Acham que isso mostra a exploração sofrida pela mulher nas rudes vielas onde mora a escória. Estranho não passar pela cabeça da gente de bem que elas possam realmente gostar disso e, na verdade, estejam levando o feminismo a um ponto mais alto, mostrando que podem encarar o sexo de maneira tanto quanto ou ainda mais fisiológica do que os homens.
O principal, no entanto, é que eles parecem estar se divertindo. E muito. No fundo, toda a grita contra o funk pode ser preconceito contra o fato de pobres estarem se divertindo. Da direita — porque, audácia! A ralé não tem o direito de se divertir! — ou da esquerda — porque eles deviam estar sofrendo com suas condições de vida subumanas e preparando a revolução, ou ao menos rendendo material para o Sebastião Salgado.
Acho o funk carioca o máximo não tanto como estilo musical — embora admita curtir um pancadão bem pegado em certos momentos —; acho o máximo mais como instituição. O funk, minha gente, é o futuro do movimento social.
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http://musicaoriginalbrasileira.blogspot.com/
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4.5.09
Apresentando James Hillman
Nota editorial: capítulo da dissertação de mestrado intitulada "Senso Íntimo: Poética e Psicologia, de Fernando Pessoa a James Hillman, defendida em 1995 na Universidade Federal Fluminense.
Igualmente difícil é apresentar a obra e a pessoa de James Hillman. Em primeiro lugar, é uma obra vastíssima que caminha nas mais variadas direções, escrita em vários estilos, com uma profusão de notas de rodapé, tudo com a intenção de fazer justiça à riqueza e pluralidade do psiquismo, e por um autor que confessadamente diz adorar escrever. Em segundo lugar, ele traz à tona formas e maneiras de se conceber o mundo e o homem que, de certa forma, são bastante estranhas ao pensamento atual, tentando, em suas palavras, recapiturar uma antiga direção. Em terceiro lugar, no que diz respeito à sua biografia, os dados que temos são em número ínfimo, porque, segundo Hillman, as idéias são mais importantes do que o homem. Além do mais, não acredita em biografia explanatória, preferindo falar das coisas em que esteve envolvido, num uso quase que parabólico dos eventos e das experiências vividas.
Em seu livro "Entre Vistas" cita como modelo de "biografia" a que Carl Gustav Jung publicou com o título "Memórias, Sonhos e Reflexões", onde o mais importante não são os fatos, mas as experiências. Isto será melhor compreendido quando, mais adiante, estabelecermos a diferença entre estes dois termos, fato e experiência, crucial para o bom entendimento do pensamento de James Hillman.
Importante para nosso trabalho é situar sua formação profissional. Novamente nossa fonte é seu livro "Entre Vistas". Estudou jornalismo, artes, literatura, filosofia ocidental e oriental, nos vários países em que viveu: Estados Unidos, seu país de origem; França; Irlanda; Índia; Suíça. Em Zürich, no ano de 1953, entrou para o Jung Institute, lá permanecendo por quase vinte anos. Nas grandes e ingênuas classificações da Psicologia, James Hillman é, portanto, "encaixado" como Junguiano. Sua postura, entretanto, não é nada ortodoxa. A atitude re-visionista e iconoclasta de suas idéias o impede de aderir dogmaticamente a qualquer corrente de pensamento.
De qualquer maneira, na grande lista das influências que a Psicologia Arquetípica recebeu, o nome de Carl Gustav Jung é colocado em primeiro lugar. O conceito dos arquétipos, padrões básicos e estruturais da psique, é um dos principais empréstimos. Contudo, uma discussão mesmo superficial sobre os arquétipos — conceito muitíssimo mal compreendido pelos críticos, extremamente mal formulado pelo próprio Jung, literalmente entendido por apressados estudantes e leitores da vasta obra de Jung — está fora de questão aqui. Iremos apenas citar, por sua clareza, um pequeno trecho do livro "The Passion of the Western Mind", de Richard Tarnas. Comparando o conceito de arquétipo com o conceito de "semelhanças familiares" formulado por Wittgenstein, Tarnas chega à seguinte formulação "pós-moderna" da idéia original de Jung:
Nesta concepção, os arquétipos são reconhecidos como padrões ou princípios duradouros que são inerentemente ambíguos e multivalentes, dinâmicos, maleáveis e sujeitos a diversas inflexões culturais e individuais, embora possuam uma distinta e subjacente coerência formal e universalidade.2
James Hillman, além do mais, faz uma pequena, mas fundamental modificação da classe gramatical na qual os arquétipos são tradicionalmente colocados. Quando, por exemplo, fala-se em "imagem arquetípica", as posturas clássicas junguianas entendem esta expressão como um indicativo de que esta determinada imagem está associada a um determinado arquétipo. Esta imagem passa a ter uma natureza diferente de outras imagens que não estejam associadas a um arquétipo. É este arquétipo substantivo que dá substância à imagem. Hillman pensa diferente. Ao invés de arquétipo como substantivo, ele concentra-se exclusivamente no arquetípico, em sua capacidade adjetiva. Toda imagem passa a ser arquetípica contanto que a ela seja associada uma idéia de valor. A intenção desse ato valorativo é tornar a imagem mais profunda, mais elaborada, mais envolvente, mais rica e mais necessária. Arquetípica é uma operação que dá importância e fecundidade a qualquer imagem. Arquetípico é algo que fazemos com a imagem e não algo que está na imagem.
A arte é uma terrível missão que deve ser cumprida "monasticamente", por isso só se pode escrever sinceramente, não no sentido menor de identidade ou correspondência entre poema e poeta, mas no sentido maior de escrever algo que contenha profundidade e importância. Nas palavras de Fernando Pessoa: "A finalidade da arte é elevar".3 No célebre oitavo poema do Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro demonstra, em suas andanças com o fugido menino Jesus, o que é esta sinceridade, através de uma atividade que as crianças e os deuses sabem fazer como ninguém, o jogo, misto de ficção e verdade profunda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta da casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.4
A importância do jogo é afirmada em todo seu extremismo, é um universo. Porém, mesmo assim, não deixa de ser um jogo. Se uma pedra cair, o máximo que acontecerá é deus e poeta porem-se a rir. A partícula ficcional "como se" está presente no poema. O "como se" é uma "complexa conjunção"5 que revela as ficções que existem em variados graus em todas as ciências, na opinião de Hans Vaihinger, autor do livro "A Filosofia do 'Como Se'". James Hillman mostra que, dos três fundadores da psicanálise, Sigmund Freud, Carl Gustav Jung e Alfred Adler, é justamente este último que mais relações estabelece entre Psicologia e a filosofia do "como se". Em seu estudo dedicado a Alfred Adler, Hillman vê no autor austríaco um precursor da "consciência pós-moderna", na medida em que substitui os sistemas "metapsicológicos" de Freud e de Jung por uma atitude que busca revelar as ficções dos sistemas, desliteralizando-os, apontando a perda da capacidade destes sistemas perceberem seus próprios "como se". É também interessante percebermos que, para Adler, o grau de loucura caminha lado a lado com um aumento do literalismo de suas crenças. Para Adler a pessoa normal é aquela que mantém uma postura metafórica diante de princípios e metas. O neurótico, por sua vez, substantiva estes princípios. Já o psicótico eleva-os à categoria de dogmas. Hillman comenta esta equação sanidade, loucura, ficção e dogma.
Se a progressão da sanidade em direção à saúde mental é distinguida pelos graus de literalismo, então a estrada terapêutica que conduz da psicose para a sanidade é aquela que retorna pela mesma passagem hermenêutica — desliteralizar. Para sermos sãos devemos reconhecer nossas crenças como ficções, e perceber as nossas hipóteses como fantasias.6
A atitude de Fernando Pessoa diante de sua obra caminha nesta mesma direção. O poeta se esforça em impedir que seus escritos transformem-se em verdades dogmáticas, abandonando, com isso, a perspectiva ficcional. Vemos, inclusive, dois sentidos para a palavra "sinceridade" em Fernando Pessoa. O primeiro, que discutimos mais acima, diz respeito ao valor do que escreve. Um segundo sentido surge na resistência de Fernando Pessoa em identificar literalmente o conteúdo de um poema com aquilo que o poeta, por ventura, esteja sentindo.
A sinceridade é o grande obstáculo que o artista tem a vencer. Só uma longa disciplina, uma aprendizagem de não sentir senão literariamente as cousas, podem levar o espírito a esta culminância.7
A necessidade de disciplina que o poeta aponta é fundamental para se manter a atitude do "como se", porque é muito difícil aceitar o sentido ficcional das nossas crenças. Acreditar, aceitar, acolher e prestar atenção à retórica das ficções é uma habilidade não encontrada com facilidade. Hillman gosta muito de citar o poeta americano Wallace Stevens que, certa vez, escreveu:
A crença definitiva é acreditar numa ficção, que você sabe ser uma ficção, nada mais havendo. A bela verdade é saber que é uma ficção e que você acredita nela de boa vontade.8
Insistimos nesta questão da diferença que Fernando Pessoa estabelece entre poema e poeta, por ser ela fundamental aos nossos estudos. Da mesma forma, será fundamental não esquecermos o "como se" para apresentarmos a segunda grande influência sofrida pela Psicologia Arquetípica. Trata-se de Henry Corbin, um dos maiores estudiosos do pensamento islâmico, em especial do sufismo e de seus filósofos-místicos Avicenna e Ibn 'Arabi. Coincidentemente, Henry Corbin já foi citado em um estudo sobre Fernando Pessoa. Dalila Pereira da Costa utiliza inúmeras vezes os ensinamentos do estudioso francês em seu livro "O Esoterismo de Fernando Pessoa". Contudo, a diferença que mencionamos mais acima, reaparecerá também na utilização diferente que James Hillman faz de Henry Corbin. Uma vez mais a literalidade do esoterismo será confrontada com a metaforicidade da ficção. Escreve a autora.
A posição ontológica, existencial e gnoseológica do poeta, em perfeita unidade de pensamento, aquela que imediatamente desponta nos anos de sua juventude, é a posição partilhada no esoterismo: o mundo visível é o invólucro do invisível, o que nós vemos é a imagem do escondido. Ao real sensível, corresponde sempre um outro transcendente, que cumpria atingir... O essencial para Pessoa, não está no primeiro plano da realidade.9
Concordamos que Fernando Pessoa tem um interesse num além do real, mas este além não é o além de que falam as religiões e posturas esotéricas. Nem este outro lado é revelado como numa espécie de delírio místico visionário, embora o próprio poeta confesse ter tido algumas experiências deste tipo. Mesmo assim, acreditamos que Fernando Pessoa desfaz suas próprias inclinações a este respeito, como se nunca permitisse que o ficcional escapasse de suas mãos. Fernando Pessoa foi muita coisa, mas nunca deixou de ser poeta, um poeta com interesses filosóficos. Portanto, se há semelhanças entre as experiências místicas e as experiências poéticas e psicológicas, elas irão limitar-se aos seus conteúdos, mas não às formas com que estes conteúdos serão experimentados. A Psicologia aceita o místico, para dele retirar o metafórico. Nas palavras de Hillman:
Quando Jacques Lacan advertiu, como é dito, que a psicanálise desapareceria caso a religião triunfasse, compreendo-o dizendo que a psicologia é impossível sempre que os significados literais triunfam, sempre que o teologizar rompa suas conexões com o psicologizar. Entretanto, essa ameaça está sempre presente.10
Retornando a Henry Corbin, muitas são suas contribuições. A principal delas é mais do que um simples empréstimo de palavra, já aparecida no capítulo anterior. Trata-se do conceito de imaginal, cunhado por Henry Corbin para traduzir a expressão alam-al-mithal, o lugar onde as visões e as histórias simbólicas aparecem, segundo o sufismo. A escolha de "imaginal" por Corbin possui seus motivos, pois negou-se a utilizar a palavra imaginário por ela carregar fortes sentimentos de irrealidade. Corbin não quis trair a experiência descrita pelos sufis, daí sua escolha por imaginal e não imaginário, visto que as imagens encontradas nestas experiências místicas são puramente reais, o que não quer dizer que sejam literalmente reais. "O imaginário pode ser inócuo; o imaginal nunca o pode ser".11
Este mundo de imagens, também chamado por Corbin de mundus imaginalis, é um intermédiário entre o mundo apreendido pelos sentidos e o mundo apreendido pelo intelecto. É um mundo que só pode ser "percebido" pela Imaginação Criativa que, segundo Corbin, não é apenas uma função mental, mas um verdadeiro órgão dos sentidos. Por seu intermédio, "o espiritual toma corpo e o corpo torna-se espiritual".12 Este duplo movimento é, para James Hillman, a essência do que denominou "a base poética da mente", pois seu esforço consiste em dar corpo às imagens e buscar as imagens nos corpos. Em um dos seus primeiros artigos críticos, intitulado "A Nova Poesia Portuguesa no seu Aspecto Psicológico", o jovem Fernando Pessoa raciocina de maneira muito próxima a Corbin e Hillman.
Para o poeta, a nova poesia que estaria surgindo, anunciando um Supra-Camões, seria uma mescla de poesia subjetiva e poesia objetiva. Por um lado é poesia da alma, poesia da vida interior, uma poesia complexa que busca "encontrar em tudo um além";13por outro lado, é uma poesia que se preocupa constantemente com a Natureza, uma poesia que se inspira na Natureza, daí ser também uma poesia objetiva. Estes dois elementos, Alma e Natureza, interpenetram-se produzindo, ao mesmo tempo uma "espiritualização da Natureza" e uma "materialização do Espírito",14 formulações quase sinônimas do título de um dos livros de Henry Corbin: "Corpo Espiritual e Terra Celestial". A esta mistura Fernando Pessoa denominou "transcendentalismo panteísta".
O trancendentalismo panteísta envolve e transcende todos os sistemas: matéria e espírito são para ele reais e irreais ao mesmo tempo, Deus e não-Deus essencialmente. Tão verdade é dizer que a matéria e o espírito existem como que não existem, porque existem e não existem ao mesmo tempo. A suprema verdade que se pode dizer de uma coisa é que ela é e não é ao mesmo tempo. Por isso, pois, que a essência do universo é a contradição — a irrealização do Real, que é a mesma cousa que a realização do Irreal —, uma afirmação é tanto mais verdadeira quanto maior contradição envolve. Dizer que a matéria é material e o espírito espiritual não é falso; mas é mais verdade dizer que a matéria é espiritual e o espírito material. E assim, complexa e indefinidamente...15
Que fabuloso jogo de oposições e contradições! Os famosos oximoros de Fernando Pessoa impedem que as coisas fiquem tranqüilamente definidas em seus lugares. Tudo se torna móvel e fluido. Dessa forma, não podemos dizer que os heterônimos existem, mas também não podemos afirmar que não existem. A saída deste impasse é se prender a ele, é nunca tentar escapar dele. Isto é feito através do jogo ficcional que o poeta chamou de fingimento, assunto, contudo, de outros capítulos.
Henry Corbin ainda nos ensina que as pessoas não possuem a mesma capacidade de discernimento. Alguns homens se prendem ao aspecto material e literal das coisas, o zahir; enquanto outros buscam um entendimento simbólico, o bastin. Podemos afirmar que tanto Fernando Pessoa quanto James Hillman buscam criar uma disciplina do batin, denominada pelo poeta de "senso íntimo" e pelo psicólogo de "cultivo da alma".
Por ora estamos satisfeitos com esta reflexão sobre Henry Corbin. Vamos continuar, pois, com o estudo das fontes da Psicologia Arquetípica. Iremos agora para a Grécia, ao encontro de um de seus obscuros habitantes. Como Fernando Pessoa, também repleto de contradições, paradoxos, oposições e oximoros: Heráclito de Éfeso.
De todos os fragmentos encontrados do filósofo, um deles é utilizado por James Hillman quase como epígrafe da sua psicologia.
Por mais que caminhe em todas as direções, jamais descobrirá os limites da alma, tão profundo é seu logos.16
Hillman comenta que, neste fragmento, Heráclito une alma (psyche), profundidade (bathun) e a complexa palavra logos num único período, tornando-as ligadas e necessárias umas às outras. Alma e profundidade estão intimamente relacionadas. O logos da alma, psico-logia, na opinião de Hillman, é a capacidade de penetrarmos na profundidade das coisas.
Outro fragmento importante para a Psicologia Arquetípica é o de número 123.
A real constituição de cada coisa está acostumada a ocultar-se.17
Para Hillman, a inclinação da alma pelo profundo expressa-se nesta busca pelo oculto, na busca do além, segundo Fernando Pessoa. Porém, não devemos esquecer que por oculto devemos entender todo um trabalho que deve ser realizado sobre as coisas enquanto reveladas através de suas formas. Além de uma nova poesia, nascida da união entre poesia subjetiva e poesia objetiva, temos igualmente uma nova psicologia, que surge no momento em que nos amigamos às imagens e nos prendemos ao seu texto como nos é revelado. Igualmente, não devemos esquecer que oculta não está a verdade do texto, mas suas possibilidades de leituras.
Por último, o próprio Hillman, num importante artigo, estabelece seus precursores. São três: Plotino, Marcílio Ficino e Gianbatista Vico. Os três filósofos pertencem a uma linhagem neo-platônica, cuja característica marcante é o movimento de ver através das realidades literal e pessoal. Estas realidades, imóveis em suas certezas, são substituídas por um jogo imagético-metafórico-retórico, embora o neo-platonismo se prenda muito a posturas alegóricas. Hillman está em busca do espírito do neo-platonismo, não das suas teses em si.
O que encontramos nos três filósofos é a importância dada à alma e à imagem. O conceito, em geral, vinculado à razão, fica em segundo plano. A psicologia que Hillman propõe é uma psicologia da alma e da imagem. Neste sentido, segue Carl Gustav Jung quanto este diz que psique=imagem. A própria palavra psicologia é decomposta em logos da psique para re-significar psicologia como estórias ou discursos da alma através das imagens. Hillman pega emprestado a idéia sufi de recital, a narrativa das experiências vividas no imaginal, como ensina Henry Corbin, para definir a Psicologia como a capacidade de ouvirmos o que as imagens estão a nos dizer.
Todos aqueles que se juntam a Hillman unem-se em torno da importância dessas duas palavras. Isto podemos perceber de maneira inequívoca quando Edward Casey, filósofo que habita este campo de pensamento, diz que imagem não é aquilo que vemos, mas sim como vemos. Para ver uma imagem não basta termos percepções. Algum processo psíquico deve se intrometer nesta atividade para que possamos dizer que estamos lidando com imagens e não com percepções. Este processo é a alma.
Embora não seja ainda o momento de nos aprofundarmos no que James Hillman entende por alma, é importante darmos mais algumas informações. Hillman reutiliza a partição tradicional do ser em espírito-alma-matéria para buscar fundamentar a essência da psicologia.
A alma é vista como um terceiro, um intermediário entre o espírito e a matéria. A alma cria um intervalo de reflexão, um intervalo de leitura, entre as certezas espirituais e materiais. Ela permite o estabelecimento de um jogo, no sentido que Jacques Derrida entende esta palavra. Uma certa contradição poderia surgir aqui. Derrida mostra-nos que o jogo só é aceito por Platão mediante um severo controle pela ética e pela política. Com isso, passa a ser apenas um divertimento e só como divertimento ele pode ser aceito e permitido. Caso compartilhasse a argumentação platônica, a Psicologia Arquetípica destruiria sua concepção básica da autonomia da alma. Por mais que cite Platão e os Neo-Platonistas, James Hillman busca uma relação psicológica com suas idéias e não uma busca de verdades e explicações. Ele não está interessado na verdade de uma idéia, de uma concepção, mas está interessado nas fantasias subjacentes às idéias e concepções. Por este motivo podemos encontrar, em seus escritos, estudos sobre as relações das pessoas com os insetos, elocubrações acerca da concepção que a masturbação enfraquece a mente, tese difundida no século passado, mas que encontramos com facilidade ainda hoje e, só para utilizarmos mais um exemplo de muitos possíveis, as várias fantasias que alimentam as concepções ocidentais sobre o coração.
Podemos esclarecer dessa maneira a diferença entre estas três categorias. Aquilo que a perspectiva material afirma é uma verdade categórica. Um vaso de flores é apenas um vaso de flores. Está à minha frente e posso tocá-lo. Igualmente, o que a perspectiva espiritual afirma é também uma verdade categórica, literal. Um santo, em êxtase, pode voar. Esta afirmação não é uma imagem, é um fato. Espírito e matéria são inexoráveis em suas constatações. A alma entra transformando qualquer uma das duas realidades em imagens. O voar do santo não precisa ser verdadeiro. O jarro de flores diz mais do que ser um simples vaso de flores. A alma permite que joguemos com estas imagens, exatamente por transformá-las em imagens. Em resumo, a alma permite-nos um olhar poético sobre o mundo.
Um exemplo do embate entre matéria e espírito, podemos encontrar nas discussões e investigações entre cientistas e religiosos quando surge alguma imagem de Santa "chorando". É um choro verdadeiro? Um milagre, uma teofania, que transformaria o local em centro mundial de peregrinação? Ou as lágrimas não passariam de humidade absorvida pelo material poroso com que a Santa foi fabricada, expelida sob a forma de gotas? Charlatanismo? No meio desta luta encontram-se os fiéis, com sua teologia popular ávida e necessitada de milagres. Não pensam: "vamos supor que a Santa estivesse chorando, vamos jogar com esta possibilidade, vamos buscar respostas a este choro". Cada qual iria encontrar as suas. Cada qual iria fazer sua leitura do evento. Falta-lhes, contudo, a perspectiva da alma, que colocaria todos no modo ficcional, ou seja, na capacidade de criarmos ficções e acreditarmos nelas, capacidade que James Hillman denominou fé psicológica.
James Hillman retira a psicologia do modelo médico e positivista, com sua ênfase no eu e no desenvolvimento, para vê-la como uma forma de arte, cujo objetivo é cultivar a alma, cultivar uma relação cada vez mais intensa e profunda com ela. O movimento em direção à alma é um movimento de interiorização. Esta interiorização não deve ser entendida como o interior do homem, mas sim o interior das coisas, de todas as coisas. Hillman resgata a antiga idéia da anima-mundi, a alma do mundo, para mostrar que tudo possui alma, que em tudo é possível haver interiorizações. Cultivar a alma é, portanto, entrar gradualmente em contato com a base poética da mente, expressão utilizada por Hillman para apontar o caráter imagético do psiquismo. Poesia e mito são os meios genuínos de expressão da alma.
O dado com o qual a Psicologia Arquetípica tem início é a imagem. A imagem foi identificada com a psique por Jung ("imagem é psique" — CW 13, par. 75), uma máxima que a Psicologia Arquetípica elaborou para entender que a alma é constituída de imagens, que a alma é primariamente uma atividade imaginativa, nativamente e paradigmaticamente apresentada pelo sonho. Pois é no sonho que o próprio sonhador atua como uma imagem entre outras e onde pode legitimamente ser mostrado que o sonhador está na imagem em vez da imagem no sonhador.18
Retornamos, agora, à apresentação da contribuição dos três precursores, Plotino de Roma (século III d.c), Ficino de Florença (século XV) e Vico de Nápoles (século XVIII). Em todos eles alma, imagem e imaginação constituem temas centrais de suas filosofias. Plotino falava da multiplicidade de consciências habitando uma mesma pessoa. Ficino propunha uma contra-educação, por meio da qual ensinar-se-ia a "existência independente do funcionamento psíquico"19. Este funcionamento era considerado como ocorrendo separado do corpo. Hillman esclarece, contudo, que a idéia de corpo, na tradição neo-platônica, diz respeito a um modo de ver o mundo, ou seja, um modo literal, material, inconsciente de outros significados. Gianbatista Vico, o grande crítico de Descartes, anti-positivista, contribui para a Psicologia Arquetípica com suas elaborações acerca do pensamento metafórico. Para Vico, este tipo de pensamento é primário e se manifesta nas principais realizações culturais do homem. É interessante destacarmos que Vico mantinha diálogos imaginários com quatro grandes autores, Platão, Tácito, Grotio e Bacon. E via Homero como um estado mental, um estilo de consciência, ou, nas palavras de Fernando Pessoa:
Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta qualquer coisa por onde se note que existiu Homero.20
Dada a importância central da alma na Psicologia Arquetípica, que levou James Hillman a estabelecer como os objetivos da terapia o cultivo desta alma, processo que denominou criatividade psicológica, o mito básico que informa e modela sua psicologia é o mito de Eros e Psique. Hillman vê a escolha, pela psicanálise, do mito de Édipo como o mito básico do psiquismo, condicionada mais a fatores históricos do que estruturais. Do final do século passado, quando a psicanálise foi inventada, até nossos dias, a atitude da cultura diante do psiquismo mudou bastante. Falar de desejos inconscientes, do complexo de Édipo, de conflitos e ansiedade tornou-se corriqueiro. Já não há tanta resistência a mergulharmos nas profundezas de nossas almas como havia no século XIX. Não é mais preciso que o psiquismo seja decifrado pelo esforço heróico da consciência. Já pode ser amorosamente buscado por esta mesma consciência. As épocas possuem seus respectivos mitos subjacentes.
O mito de Eros e Psique nos é apresentado por Lucius Apuleios, poeta helenístico do século II d.c., em seu livro "O Asno de Ouro". Ele conta a estória da bela Psique, filha de reis. Todos os homens a adoravam, tal a magnitude de sua beleza, chegando a dizer que ela era uma nova encarnação de Vênus, agora não mais nascida das águas, mas da própria terra.
O mito conta que a ciumenta e violenta Vênus, deusa do amor, não gostando do que estava acontecendo, visto que o culto da nova deusa estava levando ao abandono de seus próprios templos, resolveu vingar-se de sua mortal concorrente. Chamou seu filho Eros, o jovem alado que espalhava alegria e terror entre homens e deuses, dando-lhe a tarefa de fazer Psique se apaixonar pelo mais vil dos homens.
Psique, para espanto da lógica, não tinha pretendentes. Enquanto suas duas irmãs, que nem de longe aproximavam-se de sua beleza, já se estavam casando.
Eros, pronto para cumprir o pedido de sua mãe, aproximou-se de Psique. Contudo, diante de tanta beleza, ele próprio ficou atordoado. Espetando-se em suas próprias flechas, intoxicou-se de amor, apaixonando-se perdidamente por Psique.
O rei, preocupado com o destino de sua filha, consultou os oráculos. Foi informado de que sua filha devia ser preparada para as núpcias da morte: teria que ser levada ao alto de um penhasco e ali deixada, pois um terrível monstro viria desposá-la. Ninguém sabia, mas o monstro chamava-se Eros.
Psique foi levada pelos ventos para a base do penhasco. Lá encontrou um palácio ricamente construído onde todos os seus desejos eram atendidos por vozes. À noite, Eros visitava sua esposa oculto pela escuridão e pelo anonimato. Amavam-se e Eros prometia a Psique que este paraíso duraria, contanto que ela jamais tentasse conhecê-lo.
Um dia, instigada pela inveja de suas irmãs, Psique preparou-se para descumprir o pedido. Percebendo que Psique desconhecia o marido, retrataram-no como uma serpente que iria devorá-la quando chegasse o momento propício. Armada de uma faca e de uma lamparina à óleo, Psique aguardou o amante. A noite mais uma vez o trouxe. Amaram-se como de costume. Após Eros ter adormecido, Psique começou a agir. Pegou o punhal para cortar a cabeça do monstro, como as irmãs haviam ensinado e acendeu a lamparina para melhor iluminar o caminho de seu gesto. Para seu espanto, ali deitado não estava um monstro, mas o próprio deus do amor, lindo e jovem. Psique encantada tentou beijá-lo. Com a inclinação do corpo, deixou cair uma gota de óleo sobre o ombro do amado. Eros acordou descobrindo-se traído. Pegou sua aljava e partiu voando, terminando sua relação com Psique.
Desesperada, vendo que era impossível alcançar o amante alado, tentou se matar jogando-se num rio. Mas o deus Pã impediu-a. Deu-lhe um conselho: feridas de amor só se curam com amor. Psique decidiu, então, procurar Vênus para tentar recuperar o Amor.
Por ordem da própria deusa, Psique foi torturada: beliscões, puxões de cabelo, espancamentos. Mas Vênus aceitou entregar-lhe seu filho, que neste momento se encontrava preso, contanto que conseguisse realizar quatro tarefas. Separar, no prazo de um dia, um monte de sementes de acordo com tamanho e espécie. A segunda tarefa era pegar alguns punhados de lã dourada dos violentos carneiros do deus Sol. A terceira, encher um frasco com a água de uma fonte que brotava no alto de um rochedo guardada por dois dragões. Por último, ir ao mundo dos mortos e pegar com Perséfone, a rainha do reino, uma caixa contendo a beleza da morte. Psique, ajudada por várias figuras, foi bem sucedida em suas três primeiras tarefas. Na quarta, tudo corria bem até que, de posse da caixinha com tão valioso conteúdo, a própria Psique pensou em ficar com esta beleza, ao invés de entregá-la a Vênus. Abrindo a caixa uma nuvem faz tombar Psique com um sono mortal.
Paralelamente à realização destas tarefas, Eros curou-se de sua ferida. Já fortalecido, conseguiu escapar de seu confinamento. Voando, encontrou Psique caída ao solo, derrotada pelo sono letárgico. Pegou uma de suas flechas e espetou Psique, que foi, dessa maneira, despertada pelo amor. Eros a conduziu ao Olimpo, pedindo que Júpiter intercedesse a seu favor. Com sua ajuda, pôde então, oficializar seu casamento com Psique. Mais tarde tiveram uma filha que recebeu o nome de Volúpia.
Estes são os aspectos principais do mito. Vejamos o que James Hillman tira de importância dele.
Em linhas gerais, o mito se refere ao despertar da alma (Psique) através do amor, reconhecendo a alma como o fator interno que leva às profundezas aludidas por Heráclito. Através da atenção amorosa dada ao psiquismo, como a que ocorre no processo psicoterápico, a alma começa a desenvolver-se e a revelar-se. Para Hillman, é o "mito fundamental da criatividade psicológica".21 O mito narra o que acontece entre as pessoas e dentro das pessoas. Mostra também que o desenvolvimento de Psique não ocorre num mar de rosas. Sofrimento, tortura, depressão, tentativas de suicídio, desânimo são vivências fundamentais de todo o processo. Eros, o amor, é retratado como um grande torturador e não como um querubim bondoso. É um processo difícil e cheio de obstáculos. O belíssimo poema de Fernando Pessoa, Eros e Psique, resume a problemática aludida.
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.22
O poema revela que tanto o eu como o outro são despertados pelo mesmo procedimento. O amor pela alma é o amor pela minha alma e pela alma do outro, descobrir um é achar o outro, mesmo que esse processo se dê, a princípio, inconscientemente. A imagem da estrada, obscura e cheia de muros, é especialmente importante, pois o que caracteriza a experiência da alma, para Hillman, é o fato dela não abdicar do sofrimento que encontramos em nosso caminhar pelo mundo. Portanto, mesmo tomando emprestado o termo de Henry Corbin, imaginal, Hillman o concebe de forma diferente daquela descrita por Corbin. O imaginal, na disciplina espiritual do sufismo, é habitado por imagens angelicais carregadas de emoções positivas. O imaginal, como ententido por Hillman, além dessas imagens, também é composto por imagens aflitas, grotescas, patologizadas, sofridas. Hillman não separa a experiência da alma de emoções e vivências das quais não gostamos muito: traição, suicídio, depressão, angústia, repetição, imutabilidade, imobilidade, morte são temas estudados por sua Psicologia, não em busca de sua cura, mas em busca de sua retórica. A poesia de Fernando Pessoa, principalmente a ortônima e a assinada por Álvaro de Campos, fornecem uma base poética a esta concepção de mundo, como neste poema.
Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a mor- te,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedo- tas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera casusa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calcu- las...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que esteja muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que mor- reste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes por ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhu- ma?23
Este poema, aqui citado longamente, mas não em toda sua extensão, lembra-nos os ensinamentos do mestre Alberto Caeiro, mas com uma dosagem muito maior de angústia, enquanto que em Caeiro parece mais uma aceitação. Este é uma das experiências fundamentais a que a obra de Fernando Pessoa nos conduz, a experiência da morte e da nossa delicada situação existencial. Se as leituras esotéricas de sua obra apontam ou enfatizam momentos em que o poeta versifica o desejo de um além, poetiza uma continuidade post-mortem, ele o faz por estar absolutamente consciente da morte, sem quaisquer certezas ou seguranças. O poema que acabamos de citar nos esmaga, revelando nossa insignificância. A morte é um quarto golpe ao narcisismo do homem, que junto com os de Copérnico, Darwin e Freud, une-se para formar a base a partir da qual alguma coisa pode efetivamente ser construída.
A experiência da morte é absolutamente necessária para o cultivo da alma. É um dos temas mais freqüentes na obra de James Hillman. Pensar na vida é igualmente pensar na morte, pois uma só tem sentido em relação com a outra. Mas isto constitui, para Hillman, uma de nossas grandes dificuldades. Em um de seus livros escolhe o suicídio como objeto de estudo, por ele ser uma das situações mais extremas que podemos encontrar para experimentarmos a morte. É claro que Hillman enfatiza a importância da experiência da morte e não a morte literal, embora admita que para termos a primeira, muitas vezes é preciso corrermos o risco de nos deparar com a segunda. A morte se apresenta para pensarmos profundamente a vida, o que nem sempre ocorre.
O impulso para a morte não necessita ser concebido como um movimento anti-vida; pode ser uma demanda por um encontro com a realidade absoluta, uma demanda por uma vida mais plena através da experiência da morte.24
A morte nos leva a preocupar-nos com coisas essenciais. O envolvimento poético de Fernando Pessoa com o mundo revela este interesse pelo essencial, como já tivemos a oportunidade de mostrar.
A morte é uma grande metáfora que, como toda metáfora, aponta em várias direções. Ele próprio ofereceu algumas possibilidades. Por morte entende o Hades da mitologia grega, com seus dois aspectos. Por um lado riqueza: o Hades é rico em imagens. Por outro lado, estas imagens não se transformam em ação. Elas revelam uma perspectiva puramente psíquica, pois as imagens não têm corpo concreto. São capazes de contar estórias, mas são incapazes de agir. Toda a literatura pode ser avaliada por este ponto de vista. Por isso, Fernando Pessoa sente-se aliviado em relação a Álvaro de Campos, pois sua poesia é uma experiência psíquica que não é concretizada em ações no mundo exterior, caso contrário, "cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico em mim) seria um alarme para a vizinhança".25 Por isso, James Hillman, ao comentar que o problema do suicídio é seu literalismo, conclui que o "literalismo é suicida".26Quem morre é o ser poético, mesmo literalmente, como aconteceu com Mário de Sá-Carneiro, o grande amigo do poeta.
A ausência de ação, a busca de imagens (e não percepções), a associação entre mundo dos mortos e invisibilidade, todos estes atributos são encontrados no poema dramático "O Marinheiro" de Fernando Pessoa. O drama se passa num castelo antigo. Uma donzela morta é velada por outras três donzelas. Este culto da morte se dá num quarto circular, onde há apenas uma estreita janela. Por ela, entre dois montes, pode-se ver um pequeno trecho de mar. É noite e tudo está absolutamente imóvel. Uma das veladoras começa a contar um sonho que teve. Um marinheiro perdeu-se numa ilha longínqua, sem condições de voltar à sua terra natal. Como sofria toda vez que se lembrava de sua pátria, pôs-se a inventar uma que nunca teve. Sonhava esta nova pátria em todos os instantes por vários anos. "Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edifício impossível...".27O marinheiro criou cidades, ruas, casas, gentes, portos, companheiros, infâncias, etc. Um dia, porém, o marinheiro cansou-se de sonhar. Quis recordar sua velha pátria, mas descobriu que não se lembrava de mais nada. Depois veio um barco que passou pela ilha, mas o marinheiro lá não estava. Uma das veladoras pergunta: "Talvez tivesse regressado à Pátria... Mas a qual?".28 Descobrimos que o Hades, o mundo dos mortos, é o mundo dos sonhos. Descobrimos também, como nos ensinou Heráclito, que há sonhos dentro de outros sonhos dentro de outros sonhos dentro de outros sonhos... Alma é profundidade. Não podemos encontrar seus limites.
TERCEIRA — Será absolutamente necessário, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?
SEGUNDA — Não, minha irmã; nada é absolutamente necessário.
PRIMEIRA — Ao menos, como acabou o sonho?
SEGUNDA — Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba... Sei ao certo se o não continuo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhá-lo não é esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida?... Não me faleis mais... Principio a estar certa de qualquer coisa, que não sei o que é... Avançam para mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror que desconheço... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho... Ele é sem dúvida mais real do que Deus permite... Não estejais silenciosas... Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba... Vede, começa a ir ser dia... Vede: vai haver o dia real... Paremos... Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventura interior... Quem sabe o que está no fim dela?... Tudo isto, minhas irmãs, passou-se na noite... Não falemos mais disto, nem a nós próprios... É humano e conveniente que tomemos, cada qual, a sua atitude de tristeza.29
Fernando Pessoa denominou este texto de drama estático ou teatro estático, onde o enredo não se transforma em ação nem as figuras se movem. Mas há "a revelação das almas através das palavras trocadas".30Este drama estático é, em parte, semelhante ao que Hillman tenta com seus objetivos psicoterápicos: uma transformação radical da consciência, abandonando suas preocupações exclusivamente diurnas, para mergulhar no mundo noturno das imagens psíquicas, com a intenção de ouvir suas estórias com um ouvido poético, "reconhecendo que toda realidade, não importa de que espécie, é, antes de tudo, uma imagem da fantasia psíquica".31
Toda a psicologia de James Hillman tem como objetivo nos tornar capazes de suportar e aceitar as expressões da alma como ela é, não como gostaríamos que ela fosse. Abandona as fantasias de desenvolvimento, de cura, de totalidade e plenitude, em troca de uma perspectiva que nos faz mergulhar na dor do mundo e na dor do ser (no ser do ente), com seus conflitos e ambigüidades. O homem inserido no mundo. Sua alma fazendo parte da alma do mundo.
Em qualquer perspectiva há algo que não funciona. Em tudo há um sofrimento, uma limitação. Hillman chamou esta experiência de "infirmitas". Toda escolha envolve uma infirmitas. Talvez possamos compreender melhor as dificuldades pessoais de Fernando Pessoa, aceitar melhor suas abdicações. Aceitar melhor nossas abdicações, que uma psicologia baseada na idéia de crescimento, desenvolvimento e normalidade não nos permite.
Dessa forma, aspectos "positivos" e "negativos" de qualquer vivência estão intrinsecamente relacionados. Não podemos obter um, sem vivenciarmos o outro. Isto talvez explique, ou contribua com outra explicação para as cartas de amor ridículas , como diz Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa para Ophélia Queiroz.
Quando nos poderemos nós encontrar a sós em qualquer parte meu amor? Sinto a boca estranha, sabes, por não ter beijinhos há tanto tempo... Meu Bebé para sentar ao colo! Meu Bebé para dar dentadas! Meu Bebé para... (e depois o Bebé é mau e bate-me...) "Corpinho de tentação" te chamei eu; e assim continuarás sendo, mas longe de mim.
Bebé, vem cá; vem para o pé do Nininho; vem para os braços do Nininho; põe a tua boquinha contra a boca do Nininho... Vem... Estou tão só, tão só de beijinhos...
***
Bebezinho do Nininho-ninho:
Oh!
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
Oh! O Nininho é pequinininho!
Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros, combinei tá aqui às seis ho'as.
Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia (isto é a meia das cinco e meia).
Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Belém, sim? Sim?
Jinhos, jinhos e mais jinhos.32
A infantilidade destas cartas é muito comentada. Mas será que são diferentes de outras cartas de amor? E se são, quem está errado: Fernando Pessoa que escreve cartas de amor ridículas, ou alguém, que nunca se permitiu ser ridículo escrevendo cartas de amor? Além do mais, os críticos tiram conclusões acerca da sexualidade de Fernando Pessoa unicamente baseados nas cartas. Na verdade, ninguém sabe o que acontecia nos encontros entre o poeta e sua amada. Mas, acreditamos, que as reticências, "...", que aparecem em trechos de várias cartas são bastante eloqüentes. Mas, acreditamos, namorar Fernando Pessoa não devia ser tarefa simples.
Antônio Quadros cita duas dessas interpretações. David Mourão-Ferreira julga que o uso das expressões Bebé, Bebezinho, Bebé pequenino, Bebé-anjinho, etc. eram conjuros mágicos com a intenção de que Ophélia permanecesse no estado de mítica infância. Na mesma linha de pensamento, Yvette Centeno escreve que Fernando Pessoa não podia ver sua amada exceto como criança. "Pois como mulher poria em risco o seu próprio equilíbrio, todo feito de recusa, e não de aceitação do outro e de si mesmo".33
Sem dúvida, são leituras possíveis, mas não as únicas. A relação de Fernando Pessoa com a mulher ou com o casamento, que acreditamos ser mais básico aqui, é muito mais complexa do que parece. Além do mais — este é o ponto miticamente enfatizado por James Hillman em relação ao amor —, a experiência amorosa traz uma sensação de revitalidade juvenil, com brincadeirinhas, vozes infantis, chorinhos, demonstrações pueris de coragem, valorização de objetos ridículos como o celofane do primeiro bombom compartilhado, que é guardado como tesouros de inestimável valor, ou então, o cartão que acompanha o valioso presente, talvez mais importante do que ele próprio. Por isso, os gregos representaram acertadamente este encontro sob a forma de duas crianças, Eros e Psique. Para Hillman, não podemos experimentar a energia renovadora das imagens da infância, sem experimentarmos igualmente o infantilismo a ela associado. Comentando sobre a importância dos estórias para crianças, escreveu.
Ser adulto passo a significar ser adulterado com explicações racionalistas, e evitar infantilidades como as que encontramos nos contos-de-fadas.34
Como dissemos no começo deste capítulo, a obra de James Hillman é vastíssima e multi-direcionada.
2 Tarnas, Richard. The Passion of the Western Mind, págs. 405-406.
3 Pessoa, Fernando. Obra em Prosa, pág. 226.
4 Pessoa, Fernando. Obra Poética, pág. 211.
5 Vaihinger, Hans. The Philosophy of 'As If', pág. xli.
6 Hillman, James. Healing Fiction, pág. 111.
7 Pessoa, Fernando. Obra em Prosa, pág. 240.
8 The final belief is to believe in a fiction, which you know to be a fiction, there being nothing else. The exquisite truth is to know that it is a fiction and tha you believe in it willingly. Citado in Hillman, James, Healing Fiction, p. IX.
9 Costa, Dalila L. Pereira da. O Esoterismo de Fernando Pessoa, págs. 33 e 34.
10 Hillman, James. On Paranoia, pág. 39.
11 Corbin, Henry. Spiritual Body and Celestial Earth, pág. X.
12 Corbin, Henry. Creative Imagination in the Sufism of Ibn 'Arabi, pág. 4.
13 Pessoa, Fernando. Obra em Prosa, pág. 384.
14 Pessoa, Fernando. Obra em Prosa, pág. 386.
15 Pessoa, Fernando, Obra em Prosa, pág. 393.
16 Heráclito. Citado in: Hillman, James. The Dream and the Underworld, pág. 25. Outras traduções deste fragmento são as seguintes. Emmanuel Carneiro Leão: "Não encontraria a caminho os limites da vida mesmo quem percorresse todos os caminhos, tão profundo é o Logos que possui."; Rodolfo Mondolfo: "Los límites del alma, por más que procedas, no lograrías encontrarlos aun cuando recorrieras todos los caminos: tan hondo tiene su logos"; G. S. Kirk: "Não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos os caminhos: tão profunda medida ela tem".
17 Heráclito. Citado in: Hillman, James. The Dream and the Underworld, pág. 26. Os outros autores citados, traduzem desta forma este fragmento. Emmanuel Carneiro Leão: "Surgimento já tende ao encobrimento"; Rodolfo Mondolfo: "Según Heráclito, la naturaleza suele ocultarse"; G. S. Kirk: "A verdadeira constituição das coisas gosta de ocultar-se".
18 Hillman, Archetypal Psychology, pág. 6.
19 Hillman, Plotino, Ficino and Vico as Precursors of Archetypal Psychology, p. 155.
20 Pessoa, Obra em Prosa, p.147.
21 Hillman, James. The Myth of Analysis, pág. 55.
22 Pessoa, Fernando. Obra Poética, pág.
23 Pessoa, Fernando. Obra Poética, págs. 357-359.
24 Hillman, James. Suicide and the Soul, pág.63.
25 Pessoa, Fernando. Obra em Prosa, pág. 94.
26 Hillman, James. Suicide and the Soul, pág.13.
27 Pessoa, Fernando. Obra Poética, pág. 446.
28 Pessoa, Fernando. Obra Poética, pág. 447.
29 Pessoa, Fernando. Obra Poética, pág. 448.
30 Pessoa, Fernando. Obra em Prosa, pág. 283.
31 Hillman, James. The Dream and the Underworld, pág. 137.
32 Pessoa, Fernando. Obras de Fernando Pessoa, Vol. II, págs. 241 e 248.
33 Centeno, Yvette. Fernando Pessoa, Ophélia-bebézinho ou o horror do sexo. In: Colóqui-Letras, nº 49, Lisboa, maio de 1979, pág. 16. Citado em: Quadros, António. Fernando Pessoa: Vida, Personalidade e Génio, págs. 176-177.
34 Hillman, James. A Note on Story, pág. 3.
fonte: http://rubedo.psc.br/Artigos/apresjh.HTM



